A Chegada começa com uma sucessão de imagens rápidas, em flashes, onde somos apresentados à protagonista, resumindo sua experiência de vida com a filha. Diga-se de passagem, uma das melhores sequências do filme, pelo seu incrível poder de síntese. Essas primeiras imagens já demonstram que o filme não é e nem deseja ser um sci-fi rotineiro, no sentido da ênfase em efeitos especiais e uma pegada mais de ação e aventura. O trailer do filme e sua temática de alienígenas poderão enganar espectadores afoitos em ver algo no estilo de Independence Day. Esses se sentirão decepcionados em constatar que A Chegada tem pinta de blockbuster, mas está mais alinhado com o estilo de Interestelar ou Contato (1997).
É difícil acreditar que hoje em dia ainda seja possível abordar o assunto de chegada de alienígenas à Terra sem repetir coisas já vistas em clássicos do gênero. Mas A Chegada consegue essa proeza por 2 razões fundamentais. Primeiro, porque sua história se baseia em conto do mestre moderno da ficção científica Ted Chiang, que inclusive elogiou a adaptação de sua obra. Segundo, porque o filme na verdade, ao abordar esse tema de chegada dos aliens, está mais interessado em falar de nós, humanos.
Centrado totalmente na personagem da Dra. Louise Banks, é através dela que a história se desenvolve. Inteligentemente, o contato dela com os extraterrestres evolui ao longe do filme através dos vários níveis de classificação que os ufólogos usam (do zero grau até o contato imediato de 5º grau), de simples espectadora das notícias na TV e na internet até sua entrada na espaçonave alienígena, e sua interação com eles. O grande trunfo da história é mostrar que ao interagir com os alienígenas, buscando uma comunicação com eles que responda às indagações que preocupam as autoridades, o personagem de Amy Adams faz na verdade uma viagem interior, descobrindo em si mesma coragem, determinação e até habilidades que ela desconhecia possuir.
Amy Adams recentemente ganhou o prêmio de melhor atriz do ano pelo National Board of Review. Não sei se sua interpretação no filme é realmente a melhor interpretação feminina de 2016, mas com certeza é a melhor interpretação de Amy Adams até hoje. Grande parte do bom resultado final do filme se deve à sua performance. Mas A Chegada é daqueles filmes em que tudo funciona. Além de competentes – embora discretos – efeitos visuais, há um ótimo e detalhista trabalho de direção de arte, uma (mais uma!) excelente trilha sonora de Jóhann Jóhannsson, e uma fotografia que soube trabalhar muito bem o uso da luz e da cor. Arrisco dizer que Villeneuve, ou ao menos seu diretor de fotografia, foi um pouco influenciado pelo estilo visual de Terrence Mallick. Vi poucos filmes ultimamente tão elegantemente belos quanto este A Chegada. Que, aliado a tudo isso, ousa propor uma narrativa que se revela discretamente não-linear.
Embora não seja absolutamente hermético, ou complicado de acompanhar, o filme se propõe discutir questões sobre a comunicação e o tempo. Na minha opinião, é empolgante acompanhar o trabalho da Dra. Banks e do Dr. Ian em decifrar a linguagem dos extraterrestres, que traz em seu bojo questões que implicam na dificuldade de entendimento entre os vários povos e culturas do planeta. Do mesmo modo, ao discutir nossa noção limitada sobre tempo, o filme remete à uma questão crucial da condição humana: a consciência de nossa própria finitude. Todos nós sabemos que um dia iremos morrer, e também aqueles que amamos, mas em uma aparente contradição, construímos relações , famílias e amizades, criamos filhos e empreendemos carreiras, por acreditarmos que mesmo assim nossa jornada na Terra vale a pena.