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    Garota Sombria Caminha pela Noite
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Garota Sombria Caminha pela Noite

    Cinema de gêneros

    por Bruno Carmelo

    O primeiro elemento que chama a atenção neste filme é seu próprio formato: Garota Sombria Caminha Pela Noite mistura códigos do terror e do faroeste, em preto e branco, simulando um cenário iraniano filmado nos Estados Unidos, recheado com vampiros e marcado por um forte discurso feminista. Combina-se ao mesmo tempo o cinema clássico (o preto e branco, os códigos do faroeste) com o cinema moderno (o gênero de vampiros e fantasmas) e o pós-moderno (a mistura de todos estes elementos com o discurso progressista e a música indie rock).


    Garota Sombria Caminha pela Noite - FotoA história se passa em tempo nenhum, em local algum. A cidade fictícia de Bad City, com seus prédios banais, ruas vazias, sem placas nem comércios, remete à estrutura atemporal da fábula. Talvez a maior ousadia deste projeto não seja combinar elementos tão díspares, e sim explorar ao máximo o tempo e o espaço para falar da ausência do tempo e do espaço. A diretora Ana Lily Amirpour retrata com preciosismo cada rua, cada noite vazia, cada fábrica ou máquina no horizonte, para embaralhar as referências e chegar a um local ameaçador, mas perfeitamente anônimo.

     

    Bad City é o maior e melhor personagem desta história, mas também existem outros muito interessantes. A garota do título, convenientemente sem nome, revela-se uma vampira. Com sua roupa preta, filmada como uma capa de super-herói, ela amedronta os homens na noite vazia, invertendo as relações de poder entre os gêneros: as mulheres, seguras de sua sexualidade e de seus desejos, atacam tanto os homens mais tímidos (caso do traficante Arash) quanto aqueles seguros de si, retratados como seres patéticos que ostentam seus corpos e seus carros (caso do mafioso Saeed).

     

    Garota Sombria Caminha pela Noite - FotoNão existem vilões nem mocinhos neste local sem leis: enquanto os homens vivem do tráfico de drogas, as mulheres se prostituem, e os cadáveres se acumulam em uma vala a céu aberto, sem que isso desperte a indignação de ninguém. O conceito de sociedade, de comunidade, se perde: não existem grandes núcleos familiares, religiosos, de amigos. Como no faroeste, é cada um por si, tentando garantir a sua sobrevivência. Como nos filmes de terror, a morte é inconsequente, perversa e sem rancor. A vampira mata para se alimentar, mas também para passar o tempo, para se sentir viva.

     

    No papel feminino principal, Sheila Vand tem uma atuação impressionante. Mesmo com pouquíssimos diálogos, ela garante uma presença hipnótica, tão sedutora quando ameaçadora, através dos olhos expressivos e dos gestos mínimos, solicitados com frequência pela câmera. É uma pena que Arash Marandi, que possui mais tempo em tela do que a Garota, não apresente a mesma desenvoltura na mistura entre terror e humor, entre drama e aventura. Este homem deveria ser um rapaz frágil digno de pena, mas Marandi possui os olhos distantes, pouco interessados. Quando os dois estão juntos em cena, é difícil olhar para qualquer outra pessoa além de Sheila Vand.

     

    Garota Sombria Caminha pela Noite - FotoApesar de tantas qualidades e da premissa criativa, Garota Sombria Caminha Pela Noite nunca explora todo o seu potencial devido a algumas escolhas da direção. O filme não consegue esconder seu orçamento baixíssimo e suas dificuldades de produção: numa cena de festa, por exemplo, Amirpour fecha tanto o enquadramento no rosto dos personagens que sequer se percebe a existência de outras pessoas ao redor. Enquanto as imagens próximas reduzem a tensão do espaço, a progressão linear da narrativa decepciona: após cenas fortes e muito bem filmadas (como os ataques da vampira, expressivos em termos de enquadramento e som), a diretora imediatamente apresenta cenas monótonas, contemplativas.

     

    O filme está a bordo de uma explosão (de violência, de sexo, de estetização), mas não deixa esta pulsão fugir ao controle da estrutura cronológica, cool, blasé. A diretora se satisfaz com a criação do clima, mas não deixa sua história e seus personagens evoluírem. O maior exemplo desta escolha é a conclusão, belíssima em termos imagéticos, mas um tanto vaga como forma de amarrar a trama. O resultado satisfaz os olhos e desperta interesse quanto aos próximos passos de Amirpour como diretora, mas frustra por não se tornar a obra excelente que estava tão perto de ser.

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