Whiplash - Em Busca da Perfeição, de Damien Chazelle: Jazz e Obsessão.
Intenso. Se há uma palavra em nosso extenso vocabulário que, julgo eu, sirva perfeitamente para definir Whiplash, essa é a palavra: Intenso. Rolavam os créditos e minha respiração seguia tão ofegante quanto meus batimentos seguiam acelerados. E mesmo depois de longos minutos após o seu fim, a experiência que tive com Whiplash ainda me arrancava as mais profundas lufadas de ar, tamanha fora a satisfação que tive em assistir a esse filme. Foi uma experiência indescritível! Whiplash nos presenteia de diversas formas: desde suas atuações – onde somos surpreendidos por um Miles Teller extremamente inspirado e mostrando que pode alcançar patamares bem maiores do que se aparenta, e um J. K. Simmons na, talvez, melhor e mais visceral atuação de sua carreira – passando por toda a construção dos conflitos, pelo modo como a foto, adequando-se em determinados cenários, tenta transmitir toda a sensação de sufoco e tensão, o incrível e dinâmico jogo de câmeras utilizado em algumas cenas, e, claro, sua trilha sonora. Há uma somatória ímpar entre os elementos desse filme e foi justamente isso que, a meu ver, deu a Whiplash esse ar de intensidade. Característica essa que, embora não muito rara e distinta, é apresentada aqui com a mesma competência das grandes Big Bands dos anos 30-40, e seus dançantes Swings.
Há, de fato, um cenário bastante saturado no enredo apresentado pelo longa de Damien Chazelle. Em suas primeiras impressões, a trama se mostra bem simples; é basicamente a história de um jovem com um sonho e que encontra, no caminho, um mentor “barra pesada”, que põe em cheque todas as suas capacidades e almejos. E, sejamos francos, é verdade que esse segmento do plot não soa tão inovador quanto seria de se imaginar. Principalmente, quando estamos analisando um trabalho como esse, tão bem quisto e tão bem cotado pelo público médio e pela crítica especializada. Porém, pondo em cheque esse pequeno fator, é necessário convir com uma coisa: o modo com que determinado filme é conduzido e como seus elementos se dinamizam através disso, pode ter a capacidade de transformar uma trama “clichê”, em uma trama absolutamente diferente do que se está acostumado a ver. Uma trama absurdamente acima da média, capaz de fazer-nos abstrair completamente, enquanto assistimos, a simplicidade e repetitividade dessas pequenas coisas. E é justamente isso que acontece aqui, em Whiplash.
A maneira forte e segura que Damien Chazelle dá ao texto e a direção de Whiplash favorecem de maneira ímpar não apenas o desenvolvimento de toda a história, mas garantem, acima de tudo, duas coisas: a identificação do espectador com toda a história e a assertividade de suas críticas e reflexões. Dificilmente você encontrará alguém que, em algum momento da projeção, não tenha odiado o Fletcher, que não tenha se sentido aflito com a forma como Andrew agia, cada vez mais obsessivo, ou que, depois de seu magnífico e vibrante final, não tenha dedicado alguns minutos de seu tempo para refletir sobre as nuances que o filme apresenta. Isso tudo, se deve ao trabalho primoroso do jovem Damien Chazelle, que, aqui, angaria o reconhecimento que não conseguiu com seus trabalhos anteriores, como roteirista e diretor. Aliás, me soou muito curiosa e irônica essa inversão de jogo na carreira de Chazelle. Quem, em alguma suposição qualquer, seria capaz de imaginar que a pessoa que roteirizou o péssimo O Último Exorcismo – Parte 2 (2013) e o mediano Toque de Mestre (2013) seria a mesma a realizar o filme vencedor do Festival de Sundance 2014? Acredito que nem mesmo o mais experiente especialista em probabilidades, calculando-a, chegaria a essa conclusão. “Não existem duas palavras mais danosas na língua inglesa do que ‘bom trabalho’”, é o que diz Fletcher a Andrew, e eu torço para que Chazelle siga o conselho de seu personagem, não se acomode e mantenha o nível em suas próximas produções, a despeito dos vários “bom trabalho!” que ele certamente anda escutando por aí.
Sangue e suor brotam da tela em Whiplash, tudo em busca da perfeição. O subtítulo brasileiro já deixa claro – e bem mastigadinho –, à que o filme veio. Contudo, reflitamos por um momento: o que é a perfeição? Como alcança-la? Afinal de contas, que preços são pagos para obtê-la? Whiplash mergulha justamente nesses questionamentos, e nos leva junto. As nuances da obsessão e suas consequências, a ambição, a forma como certas relações afetam e fragilizam o ser humano e, sobretudo, os limites da perfeição. A tal “busca pela perfeição”, desde Cisne Negro (2010), encontra em Whiplash um de seus retratos mais fidedignos. Venhamos e convenhamos, Andrew e Fletcher, imersos em seus conflitos e aparentes diferenças, nada mais são do que estampas dos dois lados da mesma moeda. De um lado, o aluno, ávido por seu sonho e disposto a alcança-lo, a qualquer custo; do outro, o mestre, que tem fome pela perfeição e que, por ela, é capaz de arrancar até os últimos sopros de sanidade de seus pupilos – alojando-se, aqui, uma crítica aos mentores que submetem seus alunos a situações degradantes e de extrema pressão, para obterem o talento e o resultado desejados. Mas, além das obviedades, o que difere um do outro? O que torna a ambição dos dois tão distinta? Não são perguntas fáceis de serem respondidas, mas se me é permitido fazer proveito da subjetividade das interpretações, gosto de acreditar que ambos, dentro desse panorama, não são lá tão diferentes quanto se supõe, mas sim complementares. Andrew e Fletcher, de maneira bastante subversiva e, claro, controversa, são indivíduos que se complementam: assumem, mutuamente, um papel na vida do outro, fazendo disso seus grandes propulsores na busca pela tão almejada perfeição.
Fazendo um breve aparte que julgo ser de extrema importância, eu não ousaria terminar esse texto sem salientar que Whiplash é, além de tudo, uma baita homenagem à Música Popular Americana. Imagino, inclusive, que não tenha sido mera coincidência o nome do personagem de J. K. Simmons ser Terence Fletcher, já que nos anos 30, na ascensão da “Big Band Era“, um de seus grandes precursores se chamava Fletcher Henderson. E nada, absolutamente nada, me tira da cabeça que há uma relação referencial entre esses dois. Bom… Sendo coincidência ou não, sem mais delongas e sem margem para qualquer dúvida, Whiplash se consagra não apenas como um dos melhores e mais fortes filmes de 2014, mas também como um dos trabalhos que mais merecem destaque dentro de seu gênero e temática. E, sem medo de errar, digo: vale a pena cada minuto.