Quentin Tarantino é um diretor muito mal compreendido por críticas especializadas e pelos temas abordados em seus filmes. O perfeito "Django Livre" sofreu com algumas (não tantas) críticas negativas pelo fato de ser um filme ligeiramente racista, mesmo ele trazendo como seu personagem-título um protagonista de pele negra. "Hateful Eight", por sua vez, foi MUITO mais mal compreendido do que os filmes anteriores do diretor, e mesmo assim, ele continua trazendo personagens racistas e degradantes para suas obras. Mas parece que ninguém consegue captar a imersão de seus personagens no século XIX. Eles pensavam dessa maneira, refletiam dessa maneira. Mas, por incrível que pareça, as críticas negativas foram focadas em uma característica muito mais pessoal do diretor.
"Hateful Eight" (um título genial por si só, ao trazer uma analogia de tantos personagens na trama com o número cronológico de lançamento de seu filme, o oitavo criado pelo diretor), é um filme que, ao mesmo tempo que faz questão de trazer todas as características de outras obras do Tarantino, possuí uma atmosfera diferenciada de tudo que o diretor já criou. O filme todo se passa em praticamente dois cenários, e fazer disso um longa cativante e eletrizante de 3 horas, não é tarefa fácil. Mas Quentin Tarantino consegue, trazendo nessa bagagem 80 minutos seguidos completamente focados em uma de suas características mais memoráveis:
os diálogos
. E foi nisso que as críticas (e grande parte do público que não está acostumado com o trabalho do diretor), errou em analisar a obra. É um filme tão magnífico quanto qualquer outro criado por Tarantino, trazendo suas características essenciais, ao mesmo tempo que foca metade de filme em especificamente UMA delas.
O que é altamente visível no filme, mesmo para telespectadores menos acostumados em criticar obras cinematográficas, são as atuações. Tarantino usa as suas 3 horas de duração de maneira tão esplêndida, construindo arcos independentes e cenas dos famosos diálogos afiados, para cada um dos seus oito odiados. Começando com os três principais protagonistas: Kurt Russel, Jennifer Jason Leigh e Samuel L. Jackson. Russel é um personagem complexo ao extremo, ao mesmo tempo que consegue transmitir ser mais um dos tantos machistas de seu contexto histórico, é um personagem que eventualmente demonstra uma humanidade impressionante no papel. Jennifer Jason Leigh é uma verdadeira psicopata, uma "vilã" que transmite um certo nojo e angústia para o papel. A personagem inicialmente deveria ser da "queridinha" Jennifer Lawrence, que eu particularmente acho que estragaria o papel com seu método de atuação tão semelhante e desprovido de novidade. Mas, o melhor personagem da trama é Samuel L. Jackson... Esse homem PRECISA de uma indicação ao Oscar! Seu personagem é tão carismático e odiado ao mesmo tempo, que torna-se a figura mais aclamada na obra. O ator faz o melhor papel de sua carreira!
Todos os outros 5 odiados são magníficos em seus respectivos papéis. Tim Roth pra mim foi o personagem mais caricato do filme, e portanto me ganhou com sua atuação, ainda que pode ser evidente a sua inspiração no personagem de Hans Landa, interpretado por Christoph Waltz em "Bastardos Inglórios", também dirigido por Tarantino, e vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Walter Goggins pra mim foi a maior surpresa do filme, funcionando magistralmente como o alívio cômico da obra junto com Samuel L. Jackson. Demian Bichir capricha no sotaque de mexicano e faz o que seu papel exige. Bruce Dern é talvez o personagem menos usado em tela, mas acaba por ser igualmente memorável por sua importância em determinada cena da trama, que mostra o potencial de atuação da lenda cinematográfica que o ator é. E por fim, o macabro Michael Madsen, infelizmente na atuação mais "fraca" (ainda que nenhuma tenha sido ruim) do elenco de odiados. O personagem em si é muito interessante, mas o ator não necessariamente inova no seu método de atuação. Ainda assim, eu sempre digo que se fosse escolher um vilão para uma obra dirigida por mim, esse personagem seria interpretado por Michael Madsen. Eu simplesmente amo esse ator!
"Os Oito Odiados" é, na minha opinião, um dos filmes mais memoráveis do diretor em quesito também de trilha sonora. Ennio Morricone inclusive aproveita faixas criadas em outros filmes também compostos por ele (mas não usada nos longas específicos), como a "L'Ultima Diligenza di Red Rock", que originalmente seria usada no filme "Enigma de Outro Mundo", de 1983, também atuado por Kurt Russel e composto por Ennio Morricone. É uma breve curiosidade nerd!
Por fim, "Hateful Eight" é uma deleite para os fãs do diretor, mas infelizmente será um filme que muita gente interpretará da maneira errada ao tentar julgar sem conhecer o trabalho de Quentin Tarantino. Ele abusa nos
tempos parados de diálogos
, mas também trás a cota sanguinária de cenas graficamente chocantes, típicas do diretor. Pra mim, é um dos melhores trabalhos de Tarantino, tendo uma perfeição de atuação por parte de todo o elenco, uma narrativa paciente, porém recompensante e acima de tudo, MUITAS características típicas do diretor, ao mesmo tempo que trás uma atmosfera nova para sua carreira. E que carreira...