Wolverine é, sem dúvida alguma, um dos personagens mais importantes e famosos da cultura pop. Talvez justamente pelo fato de sua personalidade difícil, estourada e, muitas vezes, pouco compreendida. Desde o primeiro filme da equipe mutante baseada nos quadrinhos da Marvel, o papel foi encarnado de forma brilhante por Hugh Jackman – cujas participações em todos os filmes do time foram excelentes – até mesmo suas pontas em First Class e em Apocalypse. Mas era triste constatar que em suas duas aventuras solo o resultado tenha sido tão medíocre - especialmente no primeiro, Origins. Logan merecia um filme a ser lembrado. E, finalmente, este filme chegou.
Voltando ao universo Marvel (da Fox, pelo menos), o diretor James Mangold – que dirigiu o mediano Wolverine – Imortal – assina também o roteiro, em parceria com Scott Frank e Michael Green, contando uma história de sua autoria – ou seja, estamos de diante de um projeto autoral, de fato. E isso é o que acaba tornando este Logan no que talvez seja o melhor filme de super-herói da década – pelo menos o mais impactante desde de Batman – O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan em 2008. Desenvolvendo uma trama com contornos muito íntimos com relação a seus três personagens principais – Logan, Professor Xavier e a menina Laura – este longa, definitivamente, se assemelha a um estudo de personagens – suas necessidades, desejos, tristezas, frustações, sonhos... tudo isso mesclado por uma estrutura típica de Road Movie, onde seus personagens cativantes embarcam em estradas para jornadas dentro de si mesmos, buscando um destino que parece difícil de alcançar.
A trama se passa no ano de 2029, anos após os eventos que foram vistos nos outros filmes – não pergunte qual deles, já que depois de Dias de um Futuro Esquecido a cronologia ficou confusa, conforme Deadpool confirma – os X-Men praticamente não existem mais. São como uma espécie de lendas – virando até historias em quadrinhos, de fato. Logan vive agora próximo à fronteira com o México, trabalhando como motorista particular para sustentar o Professor Xavier (Stewart), que está com mais de noventa anos de idade e sofre com problemas típicos do alzheimer, aparentemente. Vivem escondidos nas instalações de uma antiga fabrica abandonada no meio do deserto, onde são ajudados por outro mutante escondido, Caliban (Merchant) – que tentam manter o professor sob controle de remédios, para que possa não chamar a atenção com seus poderes psíquicos. Essa rotina triste e enfadonha para Logan, que também começa a demonstrar um desgaste físico – já que não se regenera de ferimentos tão rápido quanto antes – começa a mudar quando a enfermeira Gabriela (Rodriguez) pede ajuda a ele para tentar esconder a garotinha Laura (Keen), que está sendo perseguida pelos homens de uma organização que faz experiências de clonagem e mutação genética – o agente Pierce (Holbrook) ficará no encalço de Logan, junto de seu exercito.
Nas mãos de outro cineasta, está história seguiria apenas o tom comum de filmes de perseguição. Mas Mangold, com sua inspiração, transforma está história simples em algo profundo, violento (de verdade) e, ao mesmo tempo, encantador. O toque humano do diretor fica evidente por garantir ainda diálogos incrivelmente realistas e verdadeiros, sem ter vergonha de inserir diversos palavrões, dando ainda mais urgência em diversos momentos – especialmente quando lidamos com a relação absurdamente emocionante de Logan com o professor Xavier – que não soa tão obvia por lembrar uma relação de pai e filho, é claro, já que ambos estão em momentos difíceis de suas vidas – se é tocante constatar que com a brilhante atuação do magnífico Patrick Stewart o professor demonstra uma busca por uma felicidade que ele sabe que não alcançará, devido as circunstancias que se encontra, também notamos como o Logan de Jackman está, realmente, cansado – e não só fisicamente, é incrível a forma como o ator ressalta que está de saco cheio da vida – a forma áspera que ele trata todos a sua volta entra em contrapartida com o que já sabemos sobre a personalidade dele – ou seja, sabemos que Logan é uma boa pessoa que quer fugir dessa vida complicada, onde é obrigado a se esconder e lidar com o fato de que pessoas que ele ama sempre são afetadas por causa dele, mesmo que indiretamente – algo já passado nos outros filmes, mas neste aqui ganha uma proporção ainda mais severa.
Para deixar isso ainda mais evidente, o filme tem um trabalho de design de produção formidável: posso citar facilmente como exemplo o tanque de agua no qual o professor Xavier vive escondido – os furos no teto, onde a luz do sol passa e dão a impressão de serem estrelas, ressaltam a vontade dele de sair daquele lugar e poder ver o céu – uma belíssima composição, ajudada ainda mais pela direção de fotografia que busca sempre deixar em alta as cores amarelas e um cinza claro – dando a intenção de mostrar a situação quente e desconfortável e, ao mesmo tempo, triste pelas quais os personagens passam. O trabalho nas composições de imagens e angulações intimistas nas cenas de diálogos impressiona tanto quanto a bela noção de enquadramentos e cortes precisos para as cenas de ação – que impressionam por sua violência e força – mesmo não sendo em enormes quantidades – Mangold é hábil em embalar o ritmo de momentos dialogados e das cenas de perseguição – ele prepara o espectador para o combate, digamos assim, dando um caráter realmente realista para a ação – até mesmo a forma como apresenta a garotinha mutante Laura para o combate é absurdamente real – tamanha a violência e sangue que ela faz jorrar – as garras dela e de Logan nunca deceparam tantos membros assim antes – é quase a mesma coisa que imaginar Quentin Tarantino dirigindo um filme dos X-Men. Tudo apoiado pela boa trilha de Marco Beltrami – que alterna entre toques intimistas e uma sonoridade que lembra música mexicana e country com rock, em vários momentos, combinando para retratar a região desértica onde se passa a história.
Mas o alicerce central de Logan é a relação entre Jackman e a garotinha Dafne Keen, que, se a principio parece ser um tanto inexpressiva, vai logo demonstrar um calor humano e visceral tão marcante, que transforma sua atuação no maior destaque deste longa. Dafne, dona de um olhar devastador, que demonstra interesse e ódio por um mundo que ela pouco conhece – ela viveu dentro de laboratórios por muitos anos – torna-se o elo central dramático da história – trazendo em sua relação com Logan e Xavier graus elevados de emoção – e bem longe de ser apelativo, tudo com uma espontaneidade absurda – e atente para o momento onde ela assiste, com o professor, em um quarto de hotel, um trecho importante do clássico faroeste Os Brutos Também Amam - tal parte traz uma mensagem muito condizente com a condição que Logan vive – se conclui nas cenas finais.
A grande ameaça para Wolverine, desta vez, vem de personagens obscuros, de fato. Se o Pierce de Boyd Halbrook passa sua arrogância e frieza de tal maneira que irrita o espectador – propositalmente, é claro – o Dr. Rice de Richard E. Grant faz a função do famoso vilão “passivo agressivo”, especialmente quando trata de cuidar de um experimento que será, talvez, a maior ameaça que Logan já enfrentou. Merece destaque no elenco ainda as atuações de Stephan Merchant como Caliban, onde passa a lealdade por seus companheiros de uma maneira que culmina numa conclusão impactante, de fato. E a curta participação de Elizabeth Rodriguez como a enfermeira que ajudou Laura a escapar do laboratório também merece menção, dado o tratamento devastador que o cineasta passa com sua personagem.
Enfim, depois de tantos filmes, finalmente Wolverine e Hugh Jackman ganham um filme a altura – um trabalho visceral, poeticamente violento e emocionante – conforme a ultima e belíssima cena do longa comprova – trazendo uma delicadeza que soara reconfortante ao espectador que acompanhou está caminhada mais tortuosa pela qual Logan já passou.
Uma verdadeira obra-prima entre os filmes de super-heróis.