É, quando Daniel Ribeiro anunciou que iria aproveitar a história de seu (maravilhoso) curta para fazer seu primeiro longa, eu já imaginava que seria bem difícil igualar o êxito que ele conseguiu atingir lá naquele história inicial. Dito e feito. Tem méritos e tal, mas parece falar menos tendo mais de 1h do que num curta de 10 minutos. Isso vindo de um roteiro que tenta, o tempo todo, se ater a uma reciclagem do curta com piadinhas que deveriam ser engraçadas mas não são, e na maioria do tempo, nem isso consegue com propriedade
Difícil acreditar também nos personagem porque, além de serem arquétipos rasos e em grande parte, desprovidos de profundidade, tudo ao redor é puro clichê e esterotipo. E o pior, nem é o estereotipo com que estamos acostumados, uma vez que é tudo muito superficial e distante da realidade brasileira; parece que Daniel Ribeiro, já com intenção de fazer seu filme ter uma carreira internacional, resolveu criar um ambiente que se assemelhasse bastante àquele que vemos em filmes americanos. A sala de aula, por exemplo, onde temos uma situação que na nossa realidade, só caberia bem tratando-se de uma classe na quarta série/quinto ano. Ao mesmo tempo, estão ali todos os personagens óbvios de um filme sobre adolescência, e todos são mal feitos, então é bem difícil de definir o que deu errado aqui. Talvez tenha faltado uma direção melhor mesmo. Perdoável, já que Daniel está só começando, e não há motivos para condená-lo por ater seu filme a um mercado internacional, uma vez que é só pesquisar pelo trailer desse filme no youtube para vermos o quanto seu curta atingiu o público de outros lugares do mundo, e o quanto deve render no exterior. Ele tá certo, mas não consigo deixar de me incomodar.
Outro ponto que me incomoda - e aqui é extremamente pessoal - é a falta de química entre Leo e Gabriel. Tentando criar uma nova atmosfera entre os dois personagens (e atores) que o curta não havia tido muito tempo pra conceber, Daniel Ribeiro tem pouca mão firme na direção e o resultado não sai lá tão bom. Até porque, sinceramente, os três são atores muito medíocres, que demonstram em tempo integral que decoraram as falas, nunca soando naturais, ainda mais pelo roteiro ter quotes também poucos naturais e, em alguns casos, até meio retardados, como aquela coisa bizarra proferida por Giovana referenciando o já não mais planeta, Plutão. Ela, que aliás, é uma personagem bem mais interessante do que o próprio filme julga ser, e, infelizmente, tem um final risível. Além disso, a decisão de mudar totalmente a situação do primeiro beijo me pareceu bastante estranha, já que ele não tem nem 1% do impacto que deveria ter, soa até banal.
No entanto, apesar dos problemas técnicos óbvios, como a edição de som em alguns momentos do filme onde as cenas são bem mal dubladas (em alguns momentos, nem "casam" com o movimento da boca), é um filme importante. Só por tratar a homossexualidade dessa forma, sem alardes, sendo apenas mais uma coisa normal da adolescencia, até inserida dentro do ambiente escolar, mesmo que de uma forma fake, merece muitos louvores (inicialmente odiei a cena final, mas pensando bem, ela é bem bonita, ainda que não muito crível). Isso não é muito comum por aqui. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho merece ser visto, nem que seja por causa disso. Porém, acho as comparações que eu vi por aí com John Hughes até ofensivas. Talvez seja uma tentativa de emular um filme do mestre americano dos filmes adolescentes, que infelizmente, ficou só na superficie mesmo.
PS: algumas cenas que são filmadas de uma forma linda e delicada sobem bastante a nota, como aquela do Leo com a jaqueta de Gabriel; o segundo explicando o eclipse para o primeiro, por esse não poder enxergá-lo; e o momento onde, enfim, Gabriel e Leo se declaram - nessa última, que poderia muito bem ter sido o primeiro beijo dos dois (e pra mim, sinceramente, é) as coisas não ditas, ou melhor, ditas mas não verbalizadas, são o ponto alto daquela situação. Sim, o filme tem seus momentos.