Lançado em 2019 sob a direção de Lui Farias, Minha Fama de Mau é uma cinebiografia que busca retratar a trajetória musical e pessoal de Erasmo Carlos, um dos grandes nomes da Jovem Guarda e do rock brasileiro. Inspirado no livro homônimo autobiográfico do próprio cantor, o filme acompanha sua ascensão desde os tempos humildes na Tijuca até sua consagração como o "Tremendão". Apesar da premissa interessante e do apelo nostálgico, a obra enfrenta desafios narrativos e estilísticos, oscilando entre o tom de homenagem e uma abordagem excessivamente romantizada da história.
A narrativa se estrutura de forma linear, iniciando-se nos anos 1960, quando um jovem Erasmo Carlos, interpretado por Chay Suede, começa a demonstrar seu fascínio pelo rock and roll e sua determinação em viver da música. Sua trajetória ganha impulso ao conhecer Carlos Imperial (Bruno de Luca), um apresentador de TV controverso e influente, que abre as portas para sua amizade e parceria musical com Roberto Carlos (Gabriel Leone). O filme cobre a ascensão meteórica da Jovem Guarda, o impacto do sucesso na vida de Erasmo, suas relações pessoais e os desafios que enfrentou ao longo da carreira.
Embora o enredo busque retratar a história de Erasmo Carlos com fidelidade, a construção narrativa peca por uma abordagem superficial de momentos-chave de sua vida. A ascensão do cantor e compositor acontece de forma acelerada, sem um desenvolvimento mais aprofundado dos conflitos e dilemas que enfrentou. A trama não explora com complexidade os desafios do sucesso repentino, as pressões da indústria fonográfica ou as transformações do cenário musical brasileiro. Como resultado, o filme se torna uma sequência de eventos nostálgicos, mas sem um arco dramático forte o suficiente para prender o espectador.
A atuação de Chay Suede como Erasmo Carlos é um dos pontos positivos da produção. Suede consegue transmitir o carisma e a ingenuidade do jovem sonhador que deseja se tornar um astro do rock nacional. Seu desempenho vocal nas performances musicais também é convincente, capturando a essência do cantor sem tentar imitar sua voz de forma exagerada. No entanto, a construção emocional do personagem carece de maior profundidade, em parte devido ao roteiro que não explora seus conflitos internos com o devido peso dramático.
Gabriel Leone, no papel de Roberto Carlos, entrega uma atuação segura, mas sem grandes nuances, limitando-se a uma representação superficial da figura do Rei da Jovem Guarda. Já Bruno de Luca, como Carlos Imperial, adota uma abordagem caricata do apresentador, enfatizando seu lado excêntrico, mas sem trazer camadas mais complexas ao personagem. Malu Rodrigues, interpretando Wanderléa, tem pouco tempo de tela e acaba sendo subaproveitada, o que reflete um dos problemas do filme: a falta de aprofundamento em figuras essenciais para a trajetória de Erasmo Carlos.
O roteiro, assinado por Lui Farias e Letícia Mey, adota uma abordagem convencional, sem grandes ousadias narrativas. A opção por uma estrutura linear e episódica resulta em uma história que, embora fiel aos eventos principais da vida de Erasmo, não apresenta um aprofundamento significativo de seus desafios pessoais e artísticos. O texto evita explorar aspectos mais complexos do protagonista, como os dilemas da fama, os desafios criativos na composição musical e as dificuldades enfrentadas ao longo das décadas seguintes.
Além disso, a narrativa apresenta momentos excessivamente romantizados, o que compromete a autenticidade da história. A ausência de conflitos mais intensos e o tom nostálgico predominante fazem com que o filme se assemelhe mais a uma homenagem do que a um retrato aprofundado da vida de Erasmo Carlos. Essa abordagem já foi criticada em outras cinebiografias brasileiras, como Minha Vida em Marte (2018), que também optou por um tom mais leve e linear em detrimento de uma análise mais profunda de seus personagens.
A cinematografia de Minha Fama de Mau, assinada por Pablo Baião, é eficiente ao recriar a atmosfera dos anos 1960, com uma paleta de cores vibrantes e figurinos que remetem à estética da Jovem Guarda. A direção de arte merece destaque por reconstruir com precisão a ambientação da época, incluindo os estúdios de televisão e os figurinos dos artistas. No entanto, a fotografia, apesar de correta, não apresenta grandes inovações visuais, mantendo-se dentro de uma estética segura e sem riscos estilísticos.
A trilha sonora é um dos pontos altos do filme, trazendo sucessos icônicos da Jovem Guarda, como Festa de Arromba, Minha Fama de Mau e É Preciso Saber Viver. As performances musicais são bem executadas e garantem momentos de entretenimento para os fãs do movimento. No entanto, a escolha de regravar algumas canções em vez de utilizar versões originais pode dividir opiniões, já que algumas performances carecem da energia e do impacto das gravações clássicas.
O desfecho do filme segue a linha de uma cinebiografia tradicional, encerrando-se sem grandes surpresas ou reviravoltas emocionais. A narrativa conclui com uma celebração da carreira de Erasmo Carlos, destacando sua importância para a música brasileira, mas sem aprofundar os desafios e transformações que enfrentou em décadas posteriores. Esse tipo de final, embora coerente com a proposta do filme, deixa a sensação de que a história poderia ter sido explorada com mais complexidade e dramaticidade.
Minha Fama de Mau (2019) é uma cinebiografia que acerta no tom nostálgico e na recriação visual da Jovem Guarda, mas peca pela falta de profundidade narrativa e emocional. O filme funciona como um tributo a Erasmo Carlos, mas adota uma abordagem excessivamente linear e sem grandes riscos criativos. Apesar das boas atuações, especialmente de Chay Suede, e da trilha sonora envolvente, a obra não consegue transcender o formato convencional de cinebiografias musicais, resultando em um retrato simpático, porém superficial, de um dos ícones do rock brasileiro.