É fato que A Grande Beleza descortina a decadência de Roma e da sociedade ocidental contemporânea, denunciando-lhe a superficialidade nos relacionamentos e a mediocridade nas almas. É também notória a dura crítica à perda de aura que acomete a arte em todas as suas manifestações, cada vez mais sujeitas a soluços egocêntricos desprovidos de sentido e intenções elevadas.
Mas o filme de Paolo Sorrentino é, sobretudo, uma reflexão cortante sobre a arte de envelhecer sem que se perca o afã de buscar razões para viver; é a história de um homem comum que se fez diferente pelo livro escrito há quarenta anos e que, durante este tempo, entre uma exuberância e outra da cidade pulsante, tem vivido em busca de alguma grande beleza capaz de justificar a sua existência. A vida mundana e confortável de Jep Gambardella confronta-se com um vazio interior inquietante diariamente emoldurado por cortes de linho sob medida para um Toni Servillo sessentão capaz de deixar muita mocinha apaixonada. Ele tem dinheiro, prestígio e inteligência. Mas lhe falta alguma (muita) coisa.
Festas regadas a bebidas, drogas e mulheres fáceis no sexo e difíceis na lida. Um trabalho que não o engrandece. A solidão de ter na assistente do lar o único esteio para conversas mais profundas. Jep é um homem intenso soterrado por essa vida demasiadamente prosaica. Mas, ao completar 65 anos, decide que pode abandonar uma mulher na cama porque não suporta ouvi-la falar de futilidades: “vou agora deixar de fazer o que não gosto”, diz ele. Também pode seguir alheio a strip-teases grosseiros, passar a noite com uma mulher e acordar feliz depois de não ter sexo com ela: “é bom sentir que simplesmente gostamos de alguém”, contempla, satisfeito.
As lembranças do amor da juventude, quando uma linda moça lhe apresentou as delícias do corpo numa praia paradisíaca, parecem ser apenas uma caricatura para mostrar que Jep não perdeu o vínculo com a pureza, com a simplicidade, com a sensibilidade, com a grandeza de alma. E, falando em alma, o diálogo com um cardeal romano revela as fragilidades do catolicismo e a premente necessidade do protagonista de refletir sobre espiritualidade e entender o que está por trás dos desígnios divinos. A Grande Beleza é, afinal, um filme de amor e esperança. De busca e contemplação.