Sobre a O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos
A história não começa e não termina com O Senhor dos Anéis. Retrocedemos sessenta anos antes da batalha do Um Anel, para vermos como tudo se revelou. Veremos novamente ele, o herói dos heróis, mesmo sendo o menor dentre os outros, Bilbo Baggins é o ladrão mais engenhoso que alguém já pode contratar. Encontramos a solidária e sábia companhia de Gandalf, o mago mais conhecido da Terra-média. Aquele que guia, que ajuda e que tem sempre boas intenções. Nos deparamos com a grandiosa companhia de Thorin Escudo de Carvalho, o Rei sob a montanha, aquele que veio reivindicar o tesouro que um dia foi roubado pelo maior vilão de Arda, aquém é intitulado de sua magnitude, oh, Smaug, o estupendo", "o Tremendo", "o Impenetrável" e "Maior e Mais Importante das Calamidades". Então, é aí que a história da grande jornada dos treze anões, um mago e um ladrão chamado, Bilbo Bolseiro começa.
Meus ouvidos e meus olhos já estão formigando de tantos comentários prós e contras sobre O Hobbit: A Batalha Dos Cinco Exércitos. Não é fácil duelar ou confrontar milhares e milhares de fãs que lutam por uma obra fílmica coerente e concisa com as obras escritas. Mas já estamos carecas e cansados de saber que nem tudo o que está no livro, é levado para as telas. Por mais que os diretores – Peter Jackson está entre eles – sejam fãs de tal obra e estudam-na por anos e anos, de cabo a rabo, sempre teremos um fio solto, uma pontinha da lã que levará a um acontecimento faltoso, como a forma diferente que um personagem é descrito ou até mesmo quando este é apagado, deletado, exterminado do mapa. Para os fãs fiéis, é uma injúria, um desacato, “uma puta falta de sacanagem”. Mas cá entre nós, tudo, mas tudo tem uma explicação.
Muitos fãs apelam em defender que Peter Jackson não deveria ter transformado O Hobbit em uma trilogia. Por vários e vários motivos, que seja até irrelevante citar todas aqui – pois cada um deve ter suas opiniões do que deveria entrar ou não -. Eu, particularmente, acredito que o que desagradou não foi só a divisão fílmica, e sim a forma com que a obra cinematográfica foi se desenrolando. De antemão, não se pode mais usar como molde universal as obras de Tolkien como o produto bruto para a produção dos filmes de Peter Jackson, pelo menos fica muito obvio em O Hobbit. Como por exemplo, a aparição do Elfo, Legolas, e uma mais relevante delas, o acréscimo genuíno de uma criação de um novo personagem, a Elfo Tauriel. Mais relevante que isso, o que foge exatamente da premissa literária de O Hobbit, é o relacionamento amoroso da mesma com um dos Anões da companhia, Killi.
Podemos citar as curtas aparições de personagens fundamentais na história. Uma delas, é Smaug, que praticamente sua presença no filme não foi respeitada, nem muito menos dada o necessário valor que ele tem no livro. Não é à toa que o chamam de Smaug, oh Estupendo. Viu-se no final de Uma Jornada Inesperada, a promessa de algo tenebroso, algo que traria e faria uma grande diferença nos filmes seguintes. O grande olhar de Smaug submerso em puro ouro, latejava e compartilhava uma certa avidez para o espectador. Já no segundo, chegamos a sua tão temida desolação, onde prometeu muito mais e apenas nos deixou mais desolados. Nem todo aquele seu vozeirão, seu olhar aniquilador, seu quente coração e sua sede por morte foi o suficiente para ter se tornado uma grande ameaça. Smaug entrou em cena como um figurante e saiu como um figurante. Prometeu mais no design de suas escamas douradas, seu tamanho e seu olhar fulminante. Quem leu o livro, vê a tensão que gira em seu entorno, desde o seu enfrentamento até a sua morte. A cena de Bard matando Smaug, se ganhasse um destaque a mais, seria tão épica quanto Éowyn matando o Rei dos Bruxos. Talvez não tenha sido relevante ter dado tanta ênfase na Batalha, pois enquanto no livro a batalha em si nem é narrada com grandes detalhes. Não me desfaço da emoção que algumas cenas proporcionaram, como a morte de Killi, que supera até mesmo a própria morte de Thorin e Filli juntos.
Desde o primeiro filme da trilogia, só se consegue criar uma expectativa positiva em um personagem, o qual a história leva o nome. Mesmo com um dragão tenebroso, revestido com uma ameaça colossal, mesmo com milhares e milhares de Orgs ou Orcs, ou até mesmo uma batalha onde pleiteiam cinco raças, os olhares só se direcionam definitivamente para a menor figura da trama: Bilbo. O Senhor Bolseiro roubou não só a Pedra Arken, mas roubou as cenas diversas vezes fielmente, assim como roubou o nosso coração também. Foi feito de sua pessoa um verdadeiro herói. Como foi e devia ser. Um personagem centrado, que teve um começo, um meio e um fim dignamente previsível. Gandalf em si, na história, sempre será um dos personagens mais deslocados e cativantes, mesmo não tendo tanta participação, só em vê-lo na tela, já sentimos uma terna segurança. Ainda mais quando sua aparição tem como participação especial a Dama Galadriel.
Uma das cenas mais marcantes e memoráveis do Hobbit, que mais entusiasmou, foi o confronto de Galadriel com Sauron. E mais adiante, a aparição de Elrond, Saruman e Radagast, que vierem para dar uma mãozinha e trazendo uma nostalgia de O Senhor dos Anéis.
Bem, diria que Peter Jackson tirou muitas balas de várias crianças e as deu em troca, legumes e verduras. Algo que não foi muito fácil de engolir, mas por fim, não se pode julgar uma obra ruim, pelo contrário, deve-se levar em consideração, mesmo com as decepções e as faltas, as grandes tecnologias que Peter Jackson fez uso, e o esforço em tentar preencher um vazio que ficou há anos guardado, quando presenciamos um último filme da primorosa trilogia, o esplêndido Retorno do Rei. Quem é admirador das fabulosas e memoráveis histórias da Terra-média, entende profundamente que por mais que seja dado o último adeus, sempre haverá em nós um espirito aventureiro, graças ás grandes narrativas de Tolkien.