Média
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O filme é dirigido por Cacá Diegues, e trata-se de uma adaptação de uma peça teatral dirigida por ele mesmo e escrita por Vinícius de Moraes "Orfeu da Conceição". No filme, Orfeu (Toni Garrido) é um popular compositor de um escola de samba que reside em uma favela do Rio de Janeiro. O mesmo acaba se apaixonando por Eurídice (Patrícia França), uma nova moradora que veio do Acre. Mas entre ambos, existe Lucinho (Murilo Benício) que é o chefe do trafico local, e amigo de longa data de Orfeu. Podemos destacar que essa versão tem uma boa complexidade, pois os pais de Orfeu possuem crenças diferentes, além de demostrar a questão do poder dentro da favela, seja ela policial ou por meio de Lucinho. O filme também nos coloca com interessantes fotografias da favela e atuações convincentes dos seus protagonistas. O único ponto que negativo do filme foi a ausência de uma maior profundidade, pois o filme ficou muito centrado em Orfeu, e não conseguiu com 1 hora e 50 minutos de filme, outros arcos e outras história, como por exemplo: o papel da milica no morro, como a comunidade respira o carnaval etc. Talvez nessa minha critica, eu esteja cometendo um tremendo de um anacronismo, ao não considerar a época em que foi produzido o filme. No geral, é um filme bom de se assistir.
O roteiro é excepcional mas faltou um olhar mais acurado para escolher os protagonistas. Tanto Toni Garrido (Orfeu)quanto Patrícia França (Eurídice) não foram bem nos seus papéis. Dá para ver a discrepância quando vemos Murillo Benício interpretando o traficante Lucinho. Faltou também cuidado na fotografia do filme. O visual não ficou tão bom . Basta comparar com filmes próximos de 1999 como Central do Brasil. A melhor coisa desse filme é a música Sou você que Toni Garrido canta durante o filme e que acabou virando uma música muito presente nas rádios brasileiras.
Cacá Diegues revisita a tragédia grega e a transporta para o morro carioca, aproximando o mito de Orfeu da realidade brasileira por meio do samba, da paixão e da violência. A proposta é interessante, e o filme tem personalidade, boa ambientação e uma trilha sonora que ajuda a construir sua identidade. É uma obra que prende a atenção, embora nem sempre alcance a força dramática que promete.
Tony Garrido e Patrícia França entregam atuações medianas. Falta aos protagonistas maior intensidade na construção de seus conflitos, o que enfraquece algumas passagens que exigiriam mais envolvimento emocional. Murilo Benício também merece ser citado: sua atuação deixa a impressão de que poderia entregar mais, explorando melhor o personagem e imprimindo-lhe maior profundidade.
O ponto alto da atuação, para mim, está em Milton Gonçalves, um ás da interpretação brasileira. Na cena final, ele entrega o mais puro suco da nossa dramaturgia: presença, domínio cênico e uma força expressiva que dispensa excessos. É um daqueles momentos em que o ator transcende o texto e demonstra, com naturalidade, o peso de uma carreira construída sobre o ofício. Uma sequência que merece ser apreciada por si só.
Há também um aspecto simbólico que merece atenção: a cobra que Orfeu encontra ao descer para buscar o corpo de Eurídice. A imagem remete ao universo mítico e reforça a presença da morte como uma força que atravessa a narrativa. Mais do que um obstáculo, a cobra evoca o perigo de atravessar a fronteira entre os vivos e os mortos, dialogando com a descida de Orfeu ao mundo subterrâneo da mitologia grega e preservando a essência trágica do mito em uma realidade brasileira.
A própria Eurídice evidencia a intenção de aproximar as duas narrativas. Tanto na mitologia quanto no filme, ela é o centro de um amor ameaçado pela morte, e sua história expõe a fragilidade dos vínculos humanos diante de um destino aparentemente inevitável. Diegues não se limita a reproduzir uma narrativa antiga: dá-lhe outra geografia, outra linguagem e novos conflitos, sem abandonar seu núcleo trágico.
Visualmente, o morro é mais do que um cenário: constitui um espaço de contradições, relações humanas e tensões sociais. A música reforça essa dimensão e estabelece uma ponte entre a mitologia clássica e a cultura popular brasileira. Ainda assim, alguns personagens mereciam maior aprofundamento, para que a ambição da proposta encontrasse uma correspondência mais consistente no plano emocional.
Seria injusto, porém, reduzir o filme às suas limitações. Há mérito na iniciativa de adaptar um mito universal a uma realidade tão particular, abordando questões como amor, desigualdade, violência e destino.
Meu saldo é positivo. Orfeu é, sim, inesquecível. Não por ser perfeito, mas por sua identidade, pela força de sua concepção e pelos momentos em que alcança uma genuína grandeza. Tony Garrido e Patrícia França poderiam ter ido além, e Murilo Benício deixa a impressão de que tinha mais a oferecer. Ainda assim, o filme encontra na cena final uma força difícil de ignorar e encerra sua trajetória em um registro de grande intensidade dramática.
Cacá Diegues entrega uma obra que merece ser vista. Entre as limitações de algumas atuações e a riqueza de sua proposta, Orfeu reafirma a capacidade de um mito antigo de encontrar novos sentidos em solo brasileiro. E, quando cinema, música e tragédia se encontram de maneira tão particular, o resultado ultrapassa o simples entretenimento: permanece na memória e convida à reflexão muito depois dos créditos finais.
Tony Garrido e Patrícia França entregam atuações medianas. Falta aos protagonistas maior intensidade na construção de seus conflitos, o que enfraquece algumas passagens que exigiriam mais envolvimento emocional. Murilo Benício também merece ser citado: sua atuação deixa a impressão de que poderia entregar mais, explorando melhor o personagem e imprimindo-lhe maior profundidade.
O ponto alto da atuação, para mim, está em Milton Gonçalves, um ás da interpretação brasileira. Na cena final, ele entrega o mais puro suco da nossa dramaturgia: presença, domínio cênico e uma força expressiva que dispensa excessos. É um daqueles momentos em que o ator transcende o texto e demonstra, com naturalidade, o peso de uma carreira construída sobre o ofício. Uma sequência que merece ser apreciada por si só.
Há também um aspecto simbólico que merece atenção: a cobra que Orfeu encontra ao descer para buscar o corpo de Eurídice. A imagem remete ao universo mítico e reforça a presença da morte como uma força que atravessa a narrativa. Mais do que um obstáculo, a cobra evoca o perigo de atravessar a fronteira entre os vivos e os mortos, dialogando com a descida de Orfeu ao mundo subterrâneo da mitologia grega e preservando a essência trágica do mito em uma realidade brasileira.
A própria Eurídice evidencia a intenção de aproximar as duas narrativas. Tanto na mitologia quanto no filme, ela é o centro de um amor ameaçado pela morte, e sua história expõe a fragilidade dos vínculos humanos diante de um destino aparentemente inevitável. Diegues não se limita a reproduzir uma narrativa antiga: dá-lhe outra geografia, outra linguagem e novos conflitos, sem abandonar seu núcleo trágico.
Visualmente, o morro é mais do que um cenário: constitui um espaço de contradições, relações humanas e tensões sociais. A música reforça essa dimensão e estabelece uma ponte entre a mitologia clássica e a cultura popular brasileira. Ainda assim, alguns personagens mereciam maior aprofundamento, para que a ambição da proposta encontrasse uma correspondência mais consistente no plano emocional.
Seria injusto, porém, reduzir o filme às suas limitações. Há mérito na iniciativa de adaptar um mito universal a uma realidade tão particular, abordando questões como amor, desigualdade, violência e destino.
Meu saldo é positivo. Orfeu é, sim, inesquecível. Não por ser perfeito, mas por sua identidade, pela força de sua concepção e pelos momentos em que alcança uma genuína grandeza. Tony Garrido e Patrícia França poderiam ter ido além, e Murilo Benício deixa a impressão de que tinha mais a oferecer. Ainda assim, o filme encontra na cena final uma força difícil de ignorar e encerra sua trajetória em um registro de grande intensidade dramática.
Cacá Diegues entrega uma obra que merece ser vista. Entre as limitações de algumas atuações e a riqueza de sua proposta, Orfeu reafirma a capacidade de um mito antigo de encontrar novos sentidos em solo brasileiro. E, quando cinema, música e tragédia se encontram de maneira tão particular, o resultado ultrapassa o simples entretenimento: permanece na memória e convida à reflexão muito depois dos créditos finais.
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