Diferentemente dos outros filmes do universo DC, Aquaman tem um tom mais leve e menos sombrio que Liga da Justiça e Batman v. Superman, e conta ainda com enredo, acertadamente, menos complexo que seus antecessores. Seu meio irmão Orm tem um plano de unir os reinos subaquáticos numa luta contra a humanidade (os que habitam a superfície), por conta da degradação ambiental dos oceanos. De cara, temos aqui um vilão com uma forte motivação que engrandece o roteiro do filme e dá um senso de dificuldade maior à tarefa do protagonista.
Tarefa esta da qual ele parece fugir na primeira metade do filme, para então finalmente perceber, como herói predestinado, que é o único, por ser o legítimo herdeiro de Atlântida, capaz de unir os povos submarinos e acabar com a guerra que iria eliminar a humanidade. A jornada do herói clássica presente no filme, apesar de ser fórmula batida, não o diminui sobretudo porque o diretor se vale de outros elementos interessantes, e é neles que reside sua força.
Aqui, James Wan realiza uma boa construção de mundo subaquático, especialmente na criação cinematográfica de Atlântida – há planos abertos magníficos da cidade submarina, com ótimos efeitos visuais -, a física dos movimentos embaixo d’água é crível e faz notar visualmente a diferença e a hostilidade do ambiente. Os planos de ação (especialmente os de pancadaria) têm a clareza necessária, com edição precisa, do jeito certo, e há um plano esteticamente lindíssimo em que Aquaman é perseguido embaixo d’água por monstros submarinos segurando um sinalizador vermelho, que faz um belo contraste de luz (vermelha) e sombra.
No mais, Wan equilibra bem a narrativa, com algumas boas doses de humor (embora nem todas as piadas funcionem bem). O figurino dos personagens e o design de produção são um pouco extravagantes demais, mas não chegam a diminuir a experiência, exceto o equipamento do vilão Manta, que é um tanto bizarro e pode tirar algumas pessoas (como eu) da imersão no filme.
É no roteiro, no entanto, que o filme encontra boa parte de seus problemas. Mas primeiro, os destaques positivos: a mescla da história de origem do personagem, contada em doses homeopáticas e no momento certo para facilitar a compreensão da história, com a narrativa principal é interessante porque elimina a necessidade de se fazer isso no começo do filme, tal qual muitos filmes do gênero fazem, e nos prendem ali geralmente durante todo o primeiro ato. Há de se destacar nesse ponto, o bom trabalho de montagem que deixou o filme bastante orgânico. O personagem do Aquaman é bem caracterizado, mas incorpora a fórmula do herói predestinado que não aceita seu destino à primeira vista, e tem como previsível ponto de virada a ameaça à vida de seu pai, que representa ali a raça humana. Há boas participações dos outros personagens secundários, que têm algo a adicionar à trama (Vulko, Mera, Atlanna), e a construção da relação (amorosa) entre o protagonista e Mera é bem dosada, sem que aparente ser apressada. A verdadeira falha, porém, é o vilão Manta, cuja presença no filme é desnecessária e posta, aparentemente, apenas para que o herói tenha um desafio adicional, que nada adiciona à trama, antes do confronto final com o verdadeiro vilão.
A interpretação do Jason Momoa, calcada na fisicalidade e no jeitão de homem bruto é muito boa justamente porque o ator consegue demonstrar toda a vulnerabilidade e inexperiência de seu personagem, o que dá uma suavizada no caráter genérico que o roteiro lhe conferiu. As demais interpretações são funcionais, sem nenhum grande destaque positivo.
De ruim, ruim mesmo, temos a cena de luta final: uma confusão caleidoscópica e colorida, mas ao mesmo tempo obscura, e poluída pelo excesso de efeitos visuais, que tiram o espectador da imersão que a boa construção de mundo proporcionava (assim como as cenas no fundo do mar com cenários brancos, que fazem parecer que foram feitas pelo time B dos efeitos visuais). Diga-se de passagem: É mais um problema dos filmes de super-heróis atuais, tem simplesmente efeito visual demais.
No fim das contas, Aquaman é um filme bem dirigido, com um roteiro genérico pontuado por pitadas interessantes, efeitos visuais dúbios e boas interpretações. Tem uma forte mensagem ambientalista e apresenta uma forma de como não resolver o problema. Conta com ótima construção de mundo, mas poderia ser mais enxuto e focar na simplicidade visual e narrativa.