"Sniper americano" tem seus bons e maus momentos. Melhor dizendo, bons, maus e péssimos elementos.
São bons elementos o som e a atuação de Bradley Cooper. O filme concorre ao Oscar de melhor edição de som e de melhor mixagem de som. Indicação justa, pois há qualidade, o prêmio, se encaminhado à obra, será exagerado, pois, apesar da qualidade, os sons se repetem demais (como não poderia deixar de ser em um filme de guerra). Preferível destinar a estatueta a um filme que varia mais no som, muito embora não exista um concorrente de destaque. Isso sem contar a politicagem - já trato do tema. A atuação de Cooper, longe de magnífica, tem sua qualidade e a indicação do Oscar flerta com o excesso. Politicagem novamente?
Os maus elementos são os previsíveis clichês que permeiam a história - apesar da indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado. O roteiro tem apenas dois trunfos: o primeiro é a tensão que gera em momentos-chave, boa parte graças à direção de Clint Eastwood; o segundo, um flashback enorme logo após a primeira cena, que torna a história mais simples ("mastigada") - mérito também da edição, indicada ao Oscar. Por outro lado, é um típico filme para o típico cidadão estadunidense, que fica com a sensação de patriotismo à flor da pele. O herói estadunidense, as dificuldades pós-guerra, o destaque na guerra, a dificuldade na vida comum e assim por diante. Bem clichê, do jeito que eles gostam lá. O que é previsível.
Péssimos elementos são dois. Os bebês que aparecem em algumas cenas são de um amadorismo digno da mais alta censura. Fica explícito que são bonecos e não bebês de verdade. "Vergonha alheia" define. Ademais, o maior pecado de "Sniper americano" é acreditar que a boa história basta para suprir algumas lacunas. A principal lacuna é o motivo que fez com que Chris Kyle se alistasse (supõe-se, o patriotismo: a suposição é inadmissível). O porquê de muitas coisas acaba se tornando nebuloso, tudo em prol da tensão e da exaltação do herói. Crítica zero, é claro. Conclusão: o objetivo era, apenas e tão-somente, dar ainda mais destaque a uma figura pública que se tornou herói nos EUA. O resto tornou-se declaradamente irrelevante (uma pena).
Merece uma observação à parte as cenas de batalha. Além da tensão já citada, verifica-se competência na edição (também já citada) e nos efeitos sonoros (idem), entretanto, tornam-se bastante repetitivas e, portanto, cansativas. Todavia, se abreviadas, poderiam comprometer o ritmo.
"Sniper americano" é destaque e sucesso de bilheteria muito mais por levantar uma bandeira (a dos EUA, evidentemente) e glorificar a "Lenda" (apelido que o protagonista recebe - acho que semideus seria mais adequado) que por sua qualidade em si. Não é ruim, mas não é tudo isso. As indicações ao Oscar (inclusive de melhor filme) são resultado disso tudo, aumentando as suas chances em detrimento de filmes que, apesar da qualidade superior, são bem menos estadunidenses. And God bless America, ou melhor, and the Oscar goes to...