Desde que Daniel Craig assumiu o posto de 007, tivemos um ótimo filme (Cassino Royale/ 2006), um filme ruim pra mediano (Quantum of Solace/ 2008), um excelente filme (Skyfall/ 2012) e agora chegamos novamente ao filme meia-boca (Spectre/ 2015). Algo que não deveria acontecer, afinal, é a mesma equipe do sucesso anterior que assumiu o posto aqui. Ou seja, falamos do premiado diretor Sam Mendes (Beleza Americana) que parece ter sentido a necessidade de avacalhar toda a construção de personagem que vinha acontecendo desde a entrada de Daniel Craig no papel e fazer um daqueles esquecíveis filmes do personagem de antes. Mas não qualquer um. Aqueles bem esquecíveis mesmo com Timothy Dalton ou Pierce Brosnan a lá "Um Novo Dia para Morrer". "Mas e a ação??? Eu vou ver esse tipo de filme pela ação"...Ok! Se a cena de abertura empolga, as outras, nem tanto. Depois de 2h30 daquela velha fórmula dos filmes de Bond, cansa. Você já sabe que tudo não faz sentido mesmo, ele vai sobreviver, a mocinha também, não há motivação psicológica mais além de desfilar seus ternos agarrados (até por demais) em cenas sem noção....então que termine logo. É um filme tão longo mas que não desenvolve um personagem sequer, nem mesmo um argumento, a Spectre, que é a organização que dá nome ao filme.
E olha que o elenco é premiado. Por exemplo, é triste ver Monica Belucci como uma figurante de luxo (deve dar 5 minutos totais a participação dela); uma Bond Girl daquelas que só servem de acessório (outro desperdício porque Léa Sydoux de "Azul é a Cor Mais Quente" é sensualíssima e também uma grande atriz que aqui não ganha muito com o que trabalhar) e Christopher Waltz, sim, aquela cara que levou o Oscar como o vilão de "Bastardos Inglórios" e depois voltou na dobradinha Tarantino e também levou o Oscar por "Django Livre". Não dá pra entender como Waltz, um sujeito que só de pensar parece ser o cara ideal para viver um vilão dos filmes de Bond, vive aqui o que seria um "icônico vilão do passado da franquia Bond"
(Blofeld - sim, aquele do gato que todo mundo já tirou sarro, inclusive Austin Powers)
, sem força, tímido e contido. Logo ele! E sem entregar maiores spoilers, com uma motivação assim, digamos, pífia, risível, digna de piada a se contar para alguém.
Mas dá pra esperar muita coisa de um filme de 007? Dá, veja "Cassino Royale", primeiro filme com Daniel que trouxe tanto na ação quanto nos diálogos um Bond humano, em conflito com a própria licença pra matar; que se machuca física e psicologicamente. Pegue o último filme, "Skyfall", não apenas lindo (indicado inclusive ao Oscar de fotografia), com um vilão capaz de realmente fazer frente a figura de 007 (Javier Barden também indicado ao Globo de Ouro naquele ano), que conseguiu divertir e ainda assim trazer o personagem em momentos tão humanos como nunca antes visto na franquia. E isso fez o que? Skyfall ser a maior bilheteria de um filme de James Bond na história! E olha que são 24 filmes! Acostumar a platéia mal dá nisso, espera-se muito do capítulo seguinte!
Com certeza "007 contra Spectre" não fará tanto sucesso, mesmo prestando mil e uma homenagens (desnecessárias) à história cinematográfica de 007 (sim, inclusive aquelas que de tão datadas viraram material para filmes como "Austin Powers"), mas porque é um filme sem emoção e com um tom de despedida para com tudo feito até aqui com o personagem, mesmo que isso já tenha ficado muito bem resolvido em "Skyfall".
Daniel Craig tem contrato para mais um filme, se seguirão ou não com ele apenas o tempo dirá, mas uma coisa é certa, se seu 007 começou com "sangue nos olhos", e ele terminar por aqui, como o filme indica, a despedida foi novamente como a de seus antecessores, na base do desgaste e do já foi tarde!