O ator dinamarquês Mads Mikkelsen está no auge de sua carreira. Após uma pequena participação em Casino Royale, ele é hoje o protagonista da série de TV americana, Hannibal. Mas continua participando de vários filmes na Dinamarca, como O Amante da Rainha e este A Caça, com o qual ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes em 2012.
No filme, Mikkelsen interpreta o funcionário de um jardim de infância de uma pequena cidade que sofre a acusação de ter abusado sexualmente de uma pequena aluna de apenas 5 anos, Klara, filha de um casal de amigos. Desde o início, o filme não deixa dúvidas de sua inocência, pois acompanhamos os fatos como eles foram se construindo, não sendo esta a intenção do filme. O que o filme procura abordar é a rapidez com que costumamos pré-julgar as pessoas e os acontecimentos. No caso específico da trama, embora como espectadores saibamos da inocência de Lucas, não podemos culpar as pessoas em formar uma opinião tão apressada a seu respeito, visto que todos se baseiam na inquestionável verdade de uma criança, sob a alegação de que uma criança não mente. Além do mais, no lugar deles, será que agiríamos diferente?
Tudo acontece muito rapidamente, e a partir da história de Klara, começam a surgir mais e mais depoimentos de outras crianças, todas apontando para a participação de Lucas em episódios libidinosos envolvendo os alunos da escola. Até sua namorada e também funcionária da escola, a princípio cética a respeito das acusações começa a demonstrar dúvidas, o que faz acabar o relacionamento. As notícias se espalham e Lucas e mesmo seu filho Marcus, que passou a morar com ele, passam a sofrer hostilidades de todos os moradores da cidade.
Um ano após, Lucas reencontra Klara em uma festa - a Jagten do título original, data em que seu filho recebe a licença de caça, marcando sua passagem para a vida adulta. Através de uma metáfora excelente, o diretor coloca a rede de mentiras, acusações e desentendimentos que os afastou a partir de uma pequena mentira inocente de Klara, apenas uma criança, sem condições de prever as suas consequências. Na primeira caça em que seu filho participa um pequeno incidente irá demonstrar que Lucas ainda não convenceu a todos de sua inocência. O passado ainda não foi enterrado e não há direito a final feliz.
Exemplos como o do filme existem vários na vida real. No Brasil, mais especificamente, já vimos várias vezes os envolvidos serem pré-julgados e condenados com a ajuda da mídia. O filme não chega a abordar este aspecto - talvez as coisas sejam um pouco diferentes na Dinamarca. Mas especificamente em uma cena o diretor demonstra claramente que não está falando apenas daqueles que os espectadores podem julgar como provincianos ignorantes. Quando Lucas encara Theo, olho no olho na igreja, ele está efetivamente olhando para a câmera, olhando para nós, espectadores, nos encarando e nos acusando de sermos todos capazes de cometer a mesma injustiça.