Preliminarmente, uma observação de caráter ideológico. Acho condenável a coisificação da mulher, o tratamento degradante a que a protagonista se submete e o machismo marcante do filme. Não é feminismo, é bom senso. Agora, a crítica.
"Cinquenta tons de cinza" não é nada. Não é um romance puro, pois o próprio Christian Grey admite não ser romântico: o casal protagonista não vai ao cinema, não costuma ir a restaurantes, ela não recebe flores ou chocolate etc. Mr. Grey até dá presentes para Anastasia e a trata algumas vezes com carinho. Mas sem romance. Também não é um filme pornográfico, até porque não apresenta nada de explícito. Sequer um filme sexy, pois as cenas de sexo são tensas e, quando não o são, mostram-se mecânicas.
Não é chocante, pois o máximo de nudez que aparece é pouco. Não é necessário afirmar (pois é óbvio) que Dakota Johnson aparece muito mais nua que Jamie Dornan, o que já indica o conservadorismo quadrado de sempre (mulheres nuas a sociedade tolera, a nudez masculina, porém, é proibida). Um filme que deveria ser polêmico tornou-se conservador. Para sair do entediante, a opção foi, após criar o príncipe contemporâneo (Mr. Grey é jovem, rico, bonito, educado, gentil, inteligente, bem-sucedido e assim por diante), contradizer essa imagem a partir de uma opção por práticas sexuais heterodoxas: BDSM. Em um nível bastante radical. Isso até talvez pudesse ser interessante e chocante, se algo mais cru aparecesse. Comparado com "Ninfomaníaca", "Cinquenta tons de cinza" soa como gibi da Mônica. Vanguardismo zero.
Então qual o motivo de tanta polêmica? O livro (o qual felizmente não li). A própria autora admite sua inspiração em "Crepúsculo" - em especial, Edward. Da lamentável brainstorm que ela teve surgiu sua obra: um pseudo-romance com um pseudo-príncipe em uma pseudo-história pseudo-chocante com pseudo-sexo. Um nada. O livro talvez seja pornô soft para mulheres. E o filme talvez cause reações às meninas mais novas (como as histéricas que gritavam no cinema nas cenas em que Dornan aparecia sem camisa - provavelmente elas nunca foram à praia...). Mas muito distante do que poderia ser, caso quisesse realmente ser algo. Não digo nem "ser bom", reitero: "ser algo". Se ainda não fui convincente sobre o conservadorismo, aqui vai outro exemplo: na maioria das cenas da prática de BDSM, Grey estava de calça jeans. Ok, não surpreende a opção de não mostrar as genitálias, mas o uso de cueca seria o mínimo (a desculpa da excitação não cola face aos recursos gráficos hoje existentes). Dito de outra forma: como um filme pode chocar se coloca o homem usando calça para filmar uma cena de sexo? Talvez "Crepúsculo", a inspiração da autora, tenha sido mais explícito.
O roteiro se mostra enrolado e molda personagens inconsistentes. Una isso a uma direção modesta e atores fajutos e o resultado pode ser catastrófico. Mas isso não é o que acontece, por duas razões. A primeira é que fala sobre um assunto que é tabu. É bem verdade que o tema é tratado de maneira excessivamente suave - com direito a fundamento, exposto em uma cena em que Grey dá satisfação a Anastasia sobre o porquê da sua preferência sexual, o que evidentemente derrete os princípios antes construídos -, mas é inegável que o tema aparece. E o segundo motivo pelo qual o filme não é uma completa catástrofe é que um bom orçamento com uma história minimamente construída praticamente impossibilitam a formação de um lixo cinematográfico. Diretora (ao tornar sexo sádico algo brando e implícito), elenco (Dakota Johnson, com o irritante cacoete de morder o lábio inferior; Jamie Dornan, com a premissa equivocada que beleza basta em Hollywood - ou talvez não tão equivocada, confesso) e roteiro (é romance ou um filme erótico? Ratifico: não é nada) até tentaram, mas o filme não é um desastre. Recebem parabéns pelo esforço. O segundo filme, se sair, tem mais chances (de ser um desastre).
Para não ser injusto, a trilha sonora é boa, o que, inclusive, facilitou a mixagem de som. Tecnicamente, o único elemento decente.
Foi só após refletir para escrever que eu enfim entendi o porquê do cinza. Cinza é aquela cor que todos desprezam, a cor que não marca, que não atrai, que não se destaca. Uma cor que não significa nada. Em um filme que não é nada. Enfim, coerência.