Crítica: Trapaça
David O. Russell se diz um diretor de personagens. Que dá total liberdade para os atores e atrizes criarem e, às vezes, até improvisarem. Inclusive, não à toa, pelo segundo ano consecutivo um filme seu coloca atores na disputa pelas quatro premiações de atuação no Oscar. Repetindo o feito de O lado bom da vida (Silver Linings Playbook, 2013) que colocou na disputa Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert DeNiro e Jackie Weaver. Agora com Christian Bale, Amy Adams e, novamente, Cooper e J. Lawrence, dessa vez na categoria de apoio.
O filme mostra Irving Rosenfeld (Christian Bale), um grande trapaceiro, que trabalha junto da sócia e amante Sydney Prosser (Amy Adams) em um negócio que envolve obras de arte roubadas ou falsificadas, e enganando pessoas sob a promessa de ter contatos com bancos no exterior para conseguir empréstimos. Os dois são forçados a colaborar com o agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper), infiltrando-o no perigoso e sedutor mundo da máfia. Ao mesmo tempo, o trio se envolve na política do país, através do candidato Carmine Polito (Jeremy Renner), onde têm a chance de uma grande operação para flagrar políticos corruptos. Os planos parecem dar certo, até a esposa de Irving, Rosalyn (Jennifer Lawrence), aparecer e mudar as regras do jogo.
Trapaça é um bom filme, porém, não mais do que isso. É divertido e conta com uma direção bem fluída em uma câmera bastante participativa, que vai de personagem à personagem e passea pelo cenário de forma dinâmica e natural, o que é uma característica marcante desse talentoso diretor.
O ponto forte mesmo está nas atuações e composições de personagem. Christian Bale mais uma vez se transforma fisicamente para um papel. Com uma ‘meia-careca’ que exige um certo cuidado na hora de colocar a peruca e uma barriga bem avantajada, ele chama a atenção. Bale faz Irving, um trapaceiro que tem como desculpa o fato de que todo mundo precisa arrumar um jeito de sobreviver e não ficar pra traz. Aliás, é essa característica que chama a sua atenção para a bela Sydney Prosser (Amy Adams). Durante uma festa eles se conhecem e se dão muito bem. Um passa certa segurança e confiança para o outro, tanto que Irving se sente à vontade pra contar sobre todos os seus “negócios” pra ela, que, por sua vez, se oferece como um trunfo para atrair clientes.
Bradley Cooper também se destaca protagonizando as cenas mais engraçadas do longa. Principalmente quando as divide com Louis C. K, que faz seu chefe Stoddard, e que nunca consegue terminar a sua história do gelo, sendo interrompido pelo apressado DiMaso.
Fazendo o político bem-feitor Carmine Polito, está Jeremy Renner. O ator tem grande participação mas não muito destaque, sendo sempre ofuscado pelos outros atores. Vale destacar que o fato de ser retratado como um político com ótimas intenções causou um pouco de alvoroço, já que na realidade – o filme é baseado em fatos reais na operação conhecida como Abscam – o político era, também, um corrupto.
E temos, ainda, a talentosa Jennifer Lawrence. Sensação em Hollywood, ela compõe uma personagem desequilibrada emocionalmente e que causa uma grande dor de cabeça para o personagem de Bale, que não consegue abandoná-la devido ao filho que têm juntos (por ele adotado), e aos seus talentos na cama.
O filme conta ainda com a participação especialíssima da lenda Robert DeNiro, que interpreta o mafioso Victor Tellegio e está em uma das cenas mais engraçadas do filme.
Outros destaques ficam por conta da direção de arte que faz um excelente trabalho de recriação de época, nas roupas, cabelos (perucas), telefones, etc. Na bela fotografia fria e dessaturada, e com uma paleta colorida que indica o tom cômico do filme. E na trilha sonora bastante apropriada para época em que o longa se passa – final dos 70 início dos 80. Com direito a “performance” de J. Lawrence na música Live and Let Die.
Se você gosta de grandes atuações e composições de personagem e de um diretor que a cada novo trabalho mostra que veio pra ficar, esse filme é um prato cheio pra você.