A "Praia do Futuro" ou a "Praia do Passado"?
Assistimos ontem ao controverso e comentado filme "Praia do Futuro", lançado em 15 de março de 2014.
Em algum momento no passado, dois amigos alemães curtem emoções radicias no mar, em frente à Praia do Futuro, em Fortaleza. Um deles se afoga e o salva-vidas (na verdade bombeiro) Donato (Wagner Moura), sente-se culpado, pois foi o primeiro afogado que não conseguiu salvar.
Donato vai visitar o sobrevivente no Hospital, devidamente uniformizado. Ao comunicar o falecimento do amigo deste e a perda do corpo, acaba admirando-o nu (pois ele rapidamente retira o avental hospitalar e coloca as próprias roupas) e, ao oferecer carona, acaba se envolvendo com o mesmo, mantendo relação sexual, dentro da viatura e com a farda!
O relacionamento evolui e Donato acaba acompanhando Konrad à Alemanha. Como resultado das suas indagações e incertezas, entre voltar para Fortaleza - onde está sua família, especialmente a mãe e o irmão caçula, Ayrton, de uns 10 anos, e a quem ele é muito ligado - e permanecer na Alemanha, Donato opta pela segunda alternativa.
Anos depois, seu irmão Ayrton aparece na Alemanha, já adulto, com a notícia da morte da mãe, há mais de um ano.
Uma história contada de forma lenta, com câmeras em grandes panorâmicas, das praias (tanto Fortaleza quanto a Alemanha), do mar e das cidades. Uma indefinição completa em relação aos personagens centrais (o "amigo" que acompanhara Konrad ao Brasil e morre afogado tem esposa e filhos, Donato e Konrad jamais falam/cogitam em União Estável ou casamento, ambas as famílias são inexistentes a não ser pelas aparições incidentais de Ayrton), cujo relacioamento se congela em encontros fortuitos (cada um vive na própria casa, não existe uma rotina comum, nem interesses em comum, o que fica evidente pelo tédio demonstrado por Donato quando acompanha Konrad a uma partida de basquete) me fizeram lembrar de filmes com esta temática que eu assistia no Conjunto Nacional, em São Paulo, nos anos 80, como "Angelical Conversation", de Derek Jarman, por exemplo.
Este tom entre o incidental/fortuito e o nostálgico, o desenvolvimento da história em 3 capítulos, muito comum nos anos 80, a falta de perspectiva de futuro dos personagens e de seu relacionamento, é que me fazem dizer que, longe de ser a "Praia do Futuro", esta é a "Praia do Passado", um passado onde homossexuais estavam condenados à "solteirice", não formavam famílias e não tinham vínculos familiares e onde a única "amarra" ou "ponto de encontro" eram os seus corpos, sendo que a única ligação entre estes corpos era o sexo, o desejo.
Não por acaso, o único atrativo real é a nudez dos atores! Tal como nos anos 80, é o melhor que o filme tem a nos oferecer!
Fica como moral da história a frase, nua, crua e em linguagem chula de Ayrton, ao reencontrar o irmão: "Você é um veado egoísta, que só quer saber de dar o cu escondido, aqui neste polo norte!"