A trama foi moderadamente desenvolvida, com roteiro e visão maduros por parte da melhor personagem, a complexa, elegante e perfeccionista Elsa, e bem fluido, tendo direito até a uns momentos que te impressionam com a saída do clichê original. Como sempre, a Disney não deixou de impressionar nos cenários e, pelo visto, a escolha do gelo foi primorosa, afinal, não eram raros os momentos em que a paisagem conseguia impressionar. No filme, a cena da construção do castelo glacial de Elsa é especialmente bela e minha cena favorita do filme. Sem deixar de ser uma fantasia encantada, o longa resolve mudar o foco do amor entre um príncipe e uma princesa para o amor entre duas irmãs, que foram privadas da convivência natural. O filme lida com questões invisíveis ao público infantil. São sequências envolvendo a dor de existir e o amor em suas variadas formas. E esse filme é uma história de amor: do excesso, da falta, da corrupção do amor, do amor maduro, do amor ingênuo, do amor sem exigências, do amor pela liberdade. E mais que isso: "Frozen" é principalmente, uma história sobre a solidão que habita a vida de cada um. E, no fechamento da história, o título do filme se justifica mais do que em qualquer outro momento, na medida em que Elsa percebe que o que estava congelado, na verdade, era seu próprio coração e permite que, finalmente, várias coisas entrem na sua vida... Em especial, a própria irmã, que sempre cultivou um grande amor por ela, embora se sentisse desamparada e sem nunca ter compreendido o distanciamento súbito e frio da irmã desde pequenas. Lógico que os romances estão presentes, mas, desta vez, em segundo foco e servindo apenas de base para o sentimento familiar que rege o espetáculo. Outra mudança bem significativa é que no longa não existe um grande vilão, mas sim uma pessoa que não consegue evitar causar problemas e colocar em risco a vida das pessoas que ama. Há até uma tentativa de criar um verdadeiro vilão, mas termina soando piegas diante da genialidade proposta em focar no problema de Elsa em ser má contra sua própria vontade. Além disso, o filme é uma excelente mensagem de força feminina, mostrando que as mulheres podem, sim, resolver seus problemas sem a ajuda de um homem e que o verdadeiro amor pode ser muito diferente daquilo que a gente pensa que é. Claro que o filme tem cenas completamente dispensáveis e os famosos clichês da Disney, mas acabou tendo muito menos que o esperado. A Disney continua com as exacerbações musicais, o que incomodou um pouco, talvez fossem realmente necessárias apenas as duas músicas, "Let It Go", a melhor música do filme, na minha opinião, e indispensável para a criação da fortaleza de Elsa, e "Do You Want to Build a Snowman?", que acompanha o crescimento sofrido e solitário das duas princesas. Mas, de qualquer forma, todos os confrontos da trama, apoiados a pequenos saltos temporais, ajudam a alimentar ainda mais o universo criado, fazendo a obra ficar ainda mais rica em detalhes. Embora eu prefira os antigos filmes em 2D, "Frozen" é, talvez, uma das melhores obras já produzidas no universo fantástico da nova trajetória da Disney.