Do mundo sobrenatural e de todas as suas criaturas, confesso que a mais interessante é o vampiro. Todas as histórias que giram em torno desse ser místico e lendário, já foram cenários para os mais diferentes tipos de filmes e séries. Com a versão clássica dos antigos filmes vampirescos conhecemos sua versão mais monstruosa, por assim dizer; contudo, o tempo passou e o Dracula, interpretado por Christopher Lee ganhou um apelo diferente, tornando-o mais apresentável e atraente; então, o cinema e o mundo conheceu Anne Rice e ganhamos Entrevista Com O Vampiro, com Brad Pitt, Tom Cruise e Antonio Banderas no elenco - e o filme tornou-se um clássico para quem curte o gênero. Também tivemos o desprazer de modinhas como Crepúsculo, e no caso das telinhas Teen Wolf, que não são lá algo para se ter muito orgulho. Após séries excelentes como True Blood, The Vampire Diaries (e não que esta esteja nesta fase muito boa atualmente) e a cancelada Dracula, somos finalmente apresentados a uma versão que (pelos trailers) promete ser arrebatadora.
O longa tem seu início com uma cena paralisada enquanto é narrada a história de Vlad Tepes e sua crueldade adquirida. No longa, conta-se que o pai de Vlad o entregou para os Turcos afim de manter a paz entre os reinos, fazendo com que o menino vivesse sob os regimes turcos e se tornasse um soldado. Quando Vlad retorna ao seu reino na Transilvânia, ele consegue estabelecer um período de dez anos de paz, até que os soldados turcos resolvem fazer uma nova exigência: O príncipe Vlad deve lhes dar mil meninos para que estes se tornem soldados, incluindo seu próprio filho. E, contrariando as expectativas turcas, o príncipe mata alguns soldados e declara guerra. Assim, ele procura a força necessária para salvar seu filho.
A história de Dracula é conhecida por todos, o que - na minha opinião - torna muito mais difícil a criação de um roteiro que não fique enfadonho, ultrapassado e um total desastre. Contudo, Gary Shore (estreante na direção) acerta o tom, conseguindo adaptar a história do Empalador com a ficção e toda a parte sobrenatural sem exageros. Entretanto, espera-se que o filme tenha uma carga maior no quesito "crueldade", já que o personagem histórico era conhecido por tal fato; porém, a direção tomou um rumo diferente, dando ao personagem uma carga emocional maior, com pinceladas de amor fraterno e um quê de romantismo, mesmo assim o personagem interpretador por Luke Evans é frio e vingativo.
O longa, além de uma trilha sonora excelente e que se completa com as cenas de ação e de diálogo, tem uma fotografia escura, sombria, complacente com seu protagonista, contrastando, também, com outras cenas iluminadas.
Mas sem dúvida, é em Luke Evans que estão todos os holofotes. O ator consegue expressar sua dor, suas incertezas e fraquezas em momentos curtos de diálogo com o filho ou a esposa, e se mostra tão cruel e vingativo conforme o filme avança. O maior protagonista da carreira de Luke Evans sem dúvida é este, tornando o peso por trás de sua interpretação muito grande; e embora espera-se que o personagem exale crueldade e medo, também vale salientar que desta vez Hollywood não o romantizou de uma maneira extrema e nem o deixou tão vulnerável. Na verdade, o longa explora uma faceta que ainda não foi cogitada: até onde um pai iria para salvar seu filho?
Vivendo sob o terror de ver seu filho (e outros mil) acabar sob domínio do rei Mehmed (Dominic Cooper) e tornar-se um soldado tão cruel quanto o próprio pai, o príncipe Vlad (ainda humano) recorre ao desespero e a única solução que ele consegue enxergar: tornar-se um vampiro e obter o poder necessário para resistir a invasão turca. Constantemente nota-se as atitudes desesperadas do príncipe e as consequências que elas lhe trazem. Assim, retratar Vlad como um ser humano desesperado para salvar aqueles que ele mais ama, seria um motivo plausível para sua atitude insana. E, é claro, Dominic Cooper prova ser muito mais versátil do que imaginamos. Depois de vê-lo em um como Mamma Mia e encarnando Howard Stark em Capitão América - O Primeiro Vingador e, ainda, após sua brilhante atuação em Bond (minissérie inglesa), aqui ele adquire sotaque e até algumas falas no idioma, bem como feições que nos lembram os turcos.
Outro aspecto bem interessante é a produção do filme em si. As tomadas panorâmicas que mostram o castelo do príncipe próximo a um penhasco e os mosteiros incrustados em montanhas cercadas por matas densas, foram feitas de uma maneira muito fiel, pois em fotografias antigas das ruínas do castelo do Dracula, percebe-se o mesmo tipo de relevo e vegetação. Além disso, a parte histórica teve lá as suas adaptações, contudo, em vários momentos o espectador é lembrado de que os turcos tentam dominar as terras do príncipe para, finalmente, avançarem para a Europa. E como estamos em meados do século XV, o figurino de uma Transilvânia que resiste contra a invasão turca, é muito bem trabalhado, sem todos aqueles adornos e vestidos cheios de camadas e babados que países como a Inglaterra e França adotaram.
Por fim, Dracula - A História Nunca Contada volta com todos aqueles aparatos que não se via há tempos num bom filme de vampiros: os dentes, os morcegos, o sangue, os crucifixos e a prata. Adicione a esta formula boas atuações e cenas incríveis de batalhas recheadas de efeitos especiais excelentes. O resultado não podia ser melhor: um filme que conta a história explorando uma faceta diferente, mas que dá aos fãs o que eles querem ver novamente: um Dracula que faça nosso ingresso valer a pena e que nos faça pensar que nem tudo está perdido (e que nem todos os vampiros brilham, é claro).