O que diria Bram Stoker?
De Lucas Borba
É verdade que uma história pode ser recontada ou mesmo complementada com novos relatos. Se em se tratando da ficção, porém, ao menos a essência da história original não for preservada nesta releitura ou acréscimo, a nova narrativa perde o próprio sentido de existir, a não ser que passe a ser considerada uma nova história meramente inspirada na original, contudo de modo algum uma extensão da trama raiz.
Essa liberdade descompromissada, que acaba por definir um príncipe empalador como herói, resume o conteúdo de Drácula – A história Nunca Contada. Com direção de Gary Shore, o longa apresenta um relato para a origem da criatura imortalizada por Bram Stoker a partir de um personagem histórico.
No filme, Vlad Tepes (Luke Evans) foi entregue como escravo aos turcos quando criança por seu pai e rei da Transilvânia. O príncipe foi um entre centenas de garotos cedidos aos opressores. Vlad fica conhecido por sua agressividade nos combates ao lado dos turcos, que empalava os inimigos vencidos. Após retornar à Transilvânia, governa em prosperidade durante uma década, até que o rei turco, Mehmed (Dominic Cooper) reclama nova leva de crianças. Com a recusa de Vlad, uma guerra tem início e, para conquistar a vitória, o príncipe recorre a uma criatura das trevas (Charles Dance), que vitimou turcos pelas redondezas. Ao beber o sangue do monstro, Vlad inicia sua transformação em vampiro e adquire habilidades sobre-humanas.
Não fosse uma cena ou outra, a narrativa lembra uma novela nível B. Incrível como numa história sobre vampiros praticamente não há sangue, mesmo em quadros em que ele deveria aparecer com destaque, caso das cenas de batalha e, pasmem, até durante o próprio ato vampiresco de sorver o líquido vermelho. Uma opção, é claro, seria a ocultação do quadro – trabalhar com o que não se vê -, mas o filme quer que acreditemos que simplesmente não possuímos tanto sangue em nossos corpos – salve o interesse comercial na classificação indicativa interferindo na narrativa. Elogie-se, contudo, a atmosfera sombria propiciada pela fotografia acinzentada de John Schwartzman.
Outro ponto frustrante é quão pouco o roteiro aproveita o potencial de um personagem que, em tese, deveria justificar ao menos uma parcela da personalidade do vampiro clássico. O que diria Bram Stoker de seu Drácula em comparação com o que vemos na tela, mesmo na conclusão do filme? Ora, na versão de Shore, Vlad não só justifica seus atos por amor à família ao longo da produção, como o faz até o último instante de projeção. Apesar do bom trabalho de Evans em humanizar o personagem – o ator, ao lado de Dance, aliás, são os que conseguem dar algum sal ao longa -, Drácula – A História Nunca Contada naturalmente não tinha a obrigação de apresentar o vampiro tal qual o conhecemos, mas ao menos deveria referenciá-lo apropriadamente. De fato, o roteiro falha até no resgate mitológico acerca do vampiro: a fonte dos poderes que o sol, a prata e a estaca têm sobre a criatura não fica clara na história.
Em suma, um filme claramente preocupado em se fazer entender – a narrativa mastigada ao ponto de cair na redundância não deixa dúvidas -, porém pobre de argumento, de referencial e que desvaloriza a própria trama – a incongruência da esposa e do filho de Vlad presentes no meio da batalha sem razão aparente, enquanto todo o sacrifício do príncipe é baseado em mantê-los em segurança, é que o diga. Uma coisa é certa: essa história, até então, com certeza não esteve nem perto de ser contada.