"Você é da polícia do sexo?"
"Azul é a cor mais quente" é um filme bonito esteticamente, que trabalha com cores de forma provocante, com rostos de forma sufocante, e com o silêncio de forma constrangedora (posterguei a mastigação da pipoca para ouvir o silêncio sepulcral do quarto de Adèle).
Um filme que enfoca as pessoas, e, assim, se identifica, ergue a mão em meio ao mar de filmes que mescla identidades uns dos outros e diz: "Eu vim pra mostrar a vida de Adèle", como quem mostra um RG.
Como não se identificar com Emma quando ela diz que conhece Adèle muito bem? E quem, naquela sala de cinema lotada, não conhece Adèle muito bem? Adèle da boca gulosa melada de molho tomate que guarda chocolates embaixo da cama, dos cabelos eternamente desgrenhados, dos olhares perdidos, Adèle do nariz escorrendo, do choro compulsivo.
Kechiche sabe quem deve aparecer, não interessa o cobrador de ônibus, a bar girl. Interessam as sardas das personagens, as axilas de Emma, que não usa sutiã por baixo da blusa. Interessam os detalhes das pessoas. E você sai 3 horas depois inebriado com esses detalhes.
Acho que as cenas de sexo precisavam mesmo ser longas. E precisavam mesmo dos closes. Kochiche naturaliza o sexo ali, torna algo corriqueiro na vida de Adèle tanto quanto comer macarronada. E, a partir disso, vêm as reflexões.
Se você se sente desconfortável ou não no primeiro minuto de cena é algo que não importa. Ora, cena de 1 minuto de sexo já vemos toda hora, se duvidar até (e principalmente) num Zorra Total da vida.
Quero ver o que você vai fazer no 2º minuto. No 3º, a cena não acaba. A você não é dado partir pra próxima, deixando pra lá a anterior, como se ela não tivesse acontecido. Você tem muito tempo pra pensar sobre ela. ESSA é a diferença e a utilidade. Necessariamente a reflexão sobre aquela cena é feita por quem assiste, independente de ser superficial ou não. São cenas assim que trazem uma mudança de parâmetros. Cinema não precisa ser o que já se conhece. E, assim, acho que esse filme, marca uma época.
O importante é: a obra é muito mais do que qualquer cena ou qualquer personagem. Se Adèle é linda, doce e misteriosa; Se Emma é envolvente em seu mundo acadêmico e criativo; Se as ruas, ainda que quase nunca mostradas, sempre parecem cenário de ensaio fotográfico, assim como os parques e os bares; Se a trilha sonora invoca o silêncio e dá mesmo vontade de ficar quieta apreciando; Se as crianças da escola de Adèle enfeitam o filme com a puerilidade que não se via há mais de 1 hora e meia; Se o próprio ensinar de Adèle já representa um enfrentamento às imposições intelectual-burguesas dos hábitos de Emma, não dá pra escolher cena que sintetize a beleza do filme, nem reflexão que o justifique. O filme precisava mesmo de 3 horas.