De uma certa maneira, o filme “Somos Tão Jovens”, dirigido por Antonio Carlos da Fontoura, dialoga bastante com o documentário “Rock Brasília: A Era de Ouro”, dirigido por Vladimir Carvalho. Em comum entre os dois longas, além do fato de se passarem em Brasília, existem as personagens que movem a história e que são aqueles jovens que, no final da década de 70/início da década de 80 se reuniam no pátio localizado em frente aos edifícios da Colina e ali começaram a germinar as primeiras sementes de um movimento musical que modificou a cena brasileira nos anos 80.
Entretanto, para o filme dirigido por Antonio Carlos da Fontoura, a personagem mais importante é aquela que é considerada um dos maiores letristas do rock nacional: Renato Manfredini Júnior, que ficou conhecido como Renato Russo. O roteiro escrito por Marcos Bernstein (com a colaboração de Victor Atherino) segue Renato (Thiago Mendonça), no período de 1976 a 1982, quando ele, um adolescente tímido, afeiçoado à literatura e à música, começa a dar os seus primeiros passos como compositor e como músico no Aborto Elétrico, numa curta trajetória solo e, enfim, na Legião Urbana.
Ao contar a história de Renato, em “Somos Tão Jovens”, é inevitável ao diretor Antonio Carlos da Fontoura tocar nos nomes conhecidos do mesmo cenário musical e que também estavam no documentário “Rock Brasília: A Era do Ouro”. Porém, a equação nova acrescentada à essa história foi o relacionamento de Renato com seus pais (Sandra Corveloni e Marcos Breda) e a irmã (Bianca Comparato) – uma família amorosa e que o encorajou em tudo aquilo que ele quis fazer e ser – e com aquela que podemos considerar a sua melhor amiga, Ana (Laila Zaid), com quem ele teve os primeiros contatos com sentimentos como amor, dor e decepção – que, não custa nada lembrar, foram boa parte da matéria-prima das músicas escritas por ele.
Existe um elemento curioso a se observar na estrutura narrativa de “Somos Tão Jovens”. Várias cenas nos levam por trás das situações que, provavelmente, inspiraram Renato Russo a compor sucessos como “Que País é Este”, “Faroeste Caboclo”, “Ainda é Cedo”, “Geração Coca-Cola”, “Tédio (com um T bem grande pra você)”, “Eu Sei” e “Química”. Por isso mesmo, o roteiro se sujeita a situações meio “forçadas”, como, por exemplo, numa cena em que Ana, Renato e seus amigos entram numa festa de uma filha de um embaixador e trocam o seguinte diálogo: “que festa estranha!”, “que gente esquisita!”.
Além disso, o diretor Antonio Carlos da Fontoura poderia ter sido mais cuidadoso na direção de seus atores. É inegável a dedicação e a entrega de Thiago Mendonça ao papel de Renato Russo. Porém, o ator vive numa linha tênue entre aquilo que podemos chamar de performance e imitação, na medida em que ele exagera em vários trejeitos que faziam parte daquilo que Renato Russo era, como, por exemplo, a forma enfática de falar, com muitas caras e bocas. A mesma situação é vista com o ator Edu Moraes, que interpreta Herbert Vianna. A forma como esse ator faz o papel, a maneira como ele imita a forma de Herbert falar, chega a ser constrangedora de se ver em cena.
Apesar disso, não dá para negar que “Somos Tão Jovens” é um filme muito vibrante e feito com muita paixão, que consegue captar um momento mágico vivido na capital federal, quando jovens oriundos da classe média alta, filhos de funcionários públicos federais, diplomatas, professores universitários, embaixadores e militares mudaram o curso da música brasileira, por meio de um movimento musical com influências do punk rock e do pós-punk inglês, porém com letras bem adaptadas à realidade nacional. Isso foi muito bem representado por Renato Russo, cujas canções, sem dúvida alguma, e já pedindo perdão pelo trocadilho, continuam a mover legiões e gerações pelo Brasil inteiro.