Eu ainda sentia os efeitos da última sessão.
É, posso dizer que durante toda a semana, vez ou outra, lembrava dos olhos azuis, maliciosos, ameaçadores e penetrantes de Alex De Large, personagem do Malcolm Macdowell em Laranja Mecânica.
Novamente é fim de semana e a cinéfila aqui precisava de mais uma dose da sétima arte.
Acabou a sessão e fui embora mais que depressa.
Não queria passar em nenhum outro lugar, ou falar de nenhum outro assunto, nem ocupar a mente com nada que pudesse me roubar a emoção que estava sentindo ao terminar de assistir o filme ``Somos tão jovens ´´.
Pra quem espera uma biografia da vida do Renato, ou a história completa da Legião Urbana, aviso que não se trata nem de uma coisa nem de outra.
O filme retrata o comecinho da história do Renato Russo, antes de ele ter uma banda, ainda na época da ditadura militar, com seus 17/20 anos.
Um Renato Russo ainda se descobrindo como artista, como ser humano, com dúvidas, com muitos sonhos, como os jovens dessa idade. Que ainda descobria o Punk Rock através dos Sex Pistols, que dava aulas de inglês, morava com os pais e bebia com os amigos.
Um rapaz que tinha o sonho de montar uma banda e que queria ser conhecido não pra ficar famoso, ter status, fazer um vídeo clipe, e aparecer na mídia, mas queria ser conhecido enquanto artista, queria atingir as pessoas com a sua música, sair da cidade tediosa que era Brasília, viver novas experiências.
E talvez esse seja um dos grandes diferenciais das bandas que surgiram nessa época - O rock despretensioso, comercialmente falando, mas gigante enquanto arte e forma de expressão cultural de uma geração. E o filme mostra bem essa essência.
Mostra a formação do Aborto Elétrico, que resultou depois na Legião Urbana e no Capital Inicial, duas das mais consagradas bandas de rock nacional.
O filme de Antonio Carlos da Fontoura deu conta do recado, que nada mais era que falar da parte da história menos conhecida da vida do Renato, uma escolha bem assertiva, já que fazer um filme sobre o Renato ídolo e já consagrado, seria na minha opinião arriscado.
Thiago Mendonça, o ator que interpreta Renato Russo está impecável, em termos de aparência, voz, trejeitos, gestos e na forma de se movimentar nos palcos que o Renato tinha que era tão singular e conhecida do seu público.
As músicas da banda em versões instrumentais, emocionam, bem como as explicações sublimes sobre as motivações que originaram algumas das canções.
As letras do Renato tem um poder absurdo de me emocionar.
A sensação que tenho quando as ouço é de que nós fomos amigos, convivemos juntos porque eu entendo tudo o que ele escreve e canta e sinto que isso é tudo o que eu também diria e escreveria se tivesse o seu talento. E essa não é uma sensação exclusiva minha, mas de uma geração.
E o filme ``Somos tão jovens ´´, aproxima ainda mais os fãs do ídolo, porque o torna ainda mais humano aos nossos olhos.
É a primeira e a sétima arte aproximando pessoas e imortalizando histórias.