Existem certas músicas cujas letras são tão bem descritivas que a gente não hesita em imaginar a história por trás delas acontecendo em nossa mente. “Faroeste Caboclo”, música composta por Renato Russo, gravada pela Legião Urbana no álbum “Que País é Este”, com certeza é uma delas. A história de João de Santo Cristo, um traficante nascido no interior do Nordeste que se muda para Brasília, onde conhece um caminho de sacrifício, pobreza, riqueza, violência, amor e redenção, estava fadada a ser transposta para o cinema – seja num longa-metragem ou num curta-metragem.
É justamente esta canção que inspira o filme “Faroeste Caboclo”, do diretor René Sampaio. Ao nos depararmos com os acontecimentos retratados nos 106 minutos de duração do longa, chegamos à conclusão de que se trata de uma livre adaptação da música de Renato Russo, na medida em que a jornada de João de Santo Cristo (Fabrício Oliveira) perde alguns de seus elementos originais (notadamente a crítica social contida na letra de Renato Russo) devido ao fato do roteiro escrito por Victor Atherino, Marcos Bernstein e José Carvalho privilegiar a história de amor que surge entre João e a jovem Maria Lúcia (Ísis Valverde), estudante de Arquitetura e filha de um Senador (Marcos Paulo, em seu último papel no cinema).
Por meio do retrato desta história de amor entre duas pessoas de origens e culturas tão diferentes, temos o desenrolar daqueles elementos que faziam de “Faroeste Caboclo” uma história muito forte. João de Santo Cristo representa muito bem aquele tipo de visão que já é quase que ultrapassada da glamurização da violência. Na forma como é retratado em sua versão cinematográfica, João de Santo Cristo é uma vítima da realidade na qual estava inserido e suas ações eram somente uma reação a toda a dor e sofrimento a qual ele estava sujeito, de uma forma que nem o amor ou a vontade de ser alguém melhor conseguiria redimir o seu caminho.
Como está implícito no próprio nome da canção/filme, “Faroeste Caboclo” tem muita influência de um dos gêneros mais tradicionais do cinema norte-americano. João de Santo Cristo era um anti-heroi solitário, cuja zona de conforto era o uso da violência. Entretanto, o lado surpreendente – e corajoso – desta história é a sua falta de moralidade, especialmente se levarmos em consideração que o desfecho dessa trama é um resultado direto da vida e das escolhas feitas pelas personagens. Em sua estreia como diretor de um longa-metragem, René Sampaio surpreende ao entregar um filme bem realizado do ponto de vista técnico, com cenas belamente fotografadas e com atuações excelentes, principalmente do trio de atores central formado por Fabrício Oliveira, Ísis Valverde e Felipe Abib (que interpreta Jeremias, o terceiro vértice dessa história).