Que filme senhoras e senhores! Que filme!
Ambientado em uma Califórnia futurista e noir, no ano de 2049, K (Ryan Gosling) é uma nova espécie de replicante desenvolvida e um blade runner à caça de seus pares que estão foragidos. Em uma investigação, K descobre que a replicante Rachel (Sean Young) teve um filho. Sua missão será encontrar esta criança.
É continuação de Blade Runner: O Caçador de Androides de 1982 que gerou diversas divergências entre os produtores e o Diretor Ridley Scott até se tornar um ícone do cinema e do gênero de ficção científica. Agora, Scott retorna como produtor em uma obra que tende agradar quem gosta do gênero investigativo, aos fãs e a quem busca um entretenimento mais autoral e sensorial.
Dirigido pelo sempre elogiado Denis Villeneuve (A Chegada - 2016; O Homem Duplicado -
2013 ), há de se aplaudir (em pé) seu trabalho. Além de toda parte técnica e de narrativa que abrange este trabalho, um dos maiores reconhecimentos de autonomia de um Diretor está na questão do tempo de um filme. Em B.R. 2049 são 2h44min. Em termos comerciais, um absurdo: quanto maior o tempo em minutos de um longa, menos sessões haverá por dia. Ou seja, isso já demonstra o “poder” que o Diretor conquistou dentro do estúdio. Em contrapartida ao extenso tempo, Villeneuve entrega uma obra magnífica. Enaltece a mise-en-scène com uma fotografia extraordinária, paleta de cores interessantes e cenas instigantes, que exigem uma reflexão por parte do espectador. Não é um filme pipoca para se assistir passivamente.
Ryan Gosling consegue extrair do personagem as emoções pertinentes ao que “acredita” viver. É um trabalho exigente, já que o ator utiliza poucas expressões faciais. Mesmo num rosto sem qualquer sorriso, seu drama e dúvidas são traduzidos através de um olhar expressivo que transita pela paixão, incompreensão e raiva. Com bem menos tempo em cena, mas surpreendente pela qualidade de interpretação, está a vilã Luv (Sylvia Hoeks). Da mesma forma, com poucas expressões, ela consegue passar um ar de ternura e de pura maldade. O choro dela é o retrato de uma “pessoa” fria.
Para complementar um longa com fotografia pesada e escura que reflete um mundo perdido e um ambiente hostil e noir, é imprescindível chamar o magistral compositor Hanz Zimmer. Em seu melhor trabalho desde a trilogia do Cavaleiro das Trevas, Zimmer soube dosar uma trilha bruta e que em determinadas cenas vai trazendo a tensão ao público.
A experiência (em IMAX principalmente) é incrível. Villeneuve compõe com riqueza a mise-en-scène. Muitas cores fria que retratam a frieza de um replicante e a rigidez policial, com cores quentes a fim de humanizar determinados momentos e retratar o próprio deserto. Esta ambientação é complementada com as referências do primeiro filme, o que dá maior relevância à continuação.
Há algumas cenas magníficas: em especial, a do beijo entre K com Joi (Ana de Armas) e Mariette (Mackenzie Davis). É emblemática, misturando sensualidade e humanizando o momento. Aliás a personagem de Joi além de interessante por si só, tem um grande peso dramático que ajuda a compor a história de K e é um dos elementos mais interessantes de discussão sobre o filme.
Toda esta narrativa construída por Villeneuve é acertada até o seu final. Há uma cena discrepante com o resto da obra e o subaproveitamento de Rick Deckard (Harrison Ford). Nada que desprestigie o longa, que ainda traz uma cena memorável entre Deckard e K. Depois de 35 anos de espera, Blade Runner 2049 é uma das grandes obras deste ano.