É um filme muito bom. Do ponto de vista técnico é impecável, com uma fotografia arrebatadora, trilha sonora perfeita e um elenco de primeira que faz este um filme certamente destacável dentre as estreias de 2017, porém deixa um gosto amargo de algo que poderia ser melhor, mas não é por pura falta de ousadia.
Todos os personagens são altamente complexos, desde a tenente responsável por K que age como uma mãe/madrasta malvada mas q no fundo se importa de verdade com o rapaz; Joi, uma inteligência artificial que nasceu pra amar e ser amada disposta à tudo por seu amo, porém triste por sua imaterialidade. Mas é justamente o fato dela não ser real que torna possível o caso amoroso com o replicante: ambos não são reais, ou melhor, o que é ser real? (uma camada a mais na discussão sobre a essência da humanidade, a corporificação do ser como parâmetro); Luv, uma filha mimada do vilão do filme, uma replicante que tal qual K caça gente de sua própria espécie, mas Luv o faz por um senso explícito de arrogância e orgulho em ser "a melhor" replicante já feita; e claro, K uma máquina com "complexo de Pinóquio" anseando por ser um menino de verdade, e que encontra em um caso policial a possibilidade de satisfazer esse sonho. É interessante como ele ao mesmo tempo tem medo e raiva de se descobrir "humano", porém se sente frustrado e triste quando essa ilusão é tirada dele. Muito profundo, pois reverbera a condição de eterna insatisfação tão típica de nossa espécie.
Cheia de citações bíblicas, como os replicantes sendo comparados aos anjos (seres sem sexo, portanto, inférteis), a história de Raquel, e as paisagens desérticas e de dilúvio típicas do velho testamento, a trama é igualmente filosófica se posta ao lado da original, porém é justamente essa semelhança, próxima à uma releitura ao invés de uma continuação, que incomoda. Novamente o tema da morte como "ponto comum" entre humanos e replicantes vem a tona ("morrer por uma causa nobre é o que há de mais humano" diz uma personagem), e esse é exatamente o mesmo discurso do filme original, embora descrito por alegorias diferentes, é óbvio. Blade Runner 2049 poderia ter ousado mais, se aprofundar em temas como a "reencarnação" através de implantes de memórias, de transumanismo, ou quem sabe até evolução expontanea. Sei lá, o céu era o limite, mas o roteiro preferiu rastejar no solo.
Claro, Deckard não poderia deixar de ser citado. Está muito diferente do personagem principal do filme original, mais deprimido e exitante que o esperado. Porém cumpre sua missão na história, destaque para o diálogo entre ele e o vilão Wallace, onde é sugerido muito sutilmente a teoria que diz que o personagem é na verdade um replicante. Uma excelente maneira de abordar o tema.
Como falei, é um filme incrível digno de se assistir várias vezes, mas não é o melhor trabalho de Dennis Villeneuve - aliás está longe disso - sendo apenas "o suficiente" pra agradar os fãs. O fato de terem preferido transformar esse filme num possível passaporte para novos longas pesa bastante. Chega à ser um desrespeito com o público fazer uma sequência 30 anos depois e agora nos deixar esperando mais 4 ou 5 anos por uma outra sequência (que pode nem acontecer).