Se teve uma coisa que a plateia logo aprendeu, ao assistir “Jogos Vorazes”, filme dirigido por Gary Ross, é que nada em Panem ou nos jogos aos quais o título desta franquia cinematográfica faz referência é aquilo que parece ser de verdade. Por mais perspicaz que fosse, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), talvez não percebesse que, ao triunfar ao final do primeiro longa dessa série, ela, na realidade, nunca iria acabar tendo a sua vida pregressa de volta. A realidade é que Katniss, Peeta Mellark (Josh Hutcherson), Gale Hawthorne (Liam Hemsworth), Haymitch Abernathy (Woody Harrelson), Effie Trinket (Elizabeth Hanks), Primrose Everdeen (Willow Shields), bem como todos os habitantes dos 12 distritos que fazem parte da Panem são prisioneiros do sistema em que eles estão inseridos – o qual é representado pelo Presidente Snow (Donald Sutherland), que lidera os distritos de uma forma completamente autoritária.
Entretanto, ao mesmo tempo, quando triunfou ao final de “Jogos Vorazes”, Katniss Everdeen – com sua personalidade forte e seu caráter desafiador – deu ao povo de Panem aquilo que eles precisavam para tentar virar esse – com o perdão do trocadilho – jogo: esperança – em dias melhores, em mudanças, em uma melhor condição de vida geral para a população. Com o objetivo de tentar suprimir os primeiros focos de revolução na população, o Presidente Snow decide que a nova edição dos Jogos Vorazes terá como participantes os vencedores de edições prévias do “torneio”. Desta forma, Katniss Everdeen e Peeta Mellark, mais uma vez, estão no foco de uma realidade marcada pela manipulação e pelas cartas marcadas. A diferença é que, desta vez, eles dois sabem e têm a experiência necessária para compreender o que está acontecendo ao seu redor.
Se “Jogos Vorazes”, de uma certa maneira, privilegiava a construção da personagem Katniss Everdeen como a líder que ela tem potencial para ser, bem como um romance forjado que continua soando artificial – ainda mais quando confrontado com aquilo que me parece ser os verdadeiros sentimentos de Katniss – “Jogos Vorazes: Em Chamas”, a continuação dirigida por Francis Lawrence, coloca o foco totalmente na situação política de Panem e, principalmente, nas artimanhas (notadamente os Jogos Vorazes, além de prisões, espancamentos, etc) utilizadas pelo Presidente Snow como forma de distrair a população dos seus verdadeiros problemas.
Para fazer uma referência direta ao subtítulo do filme, não é só Katniss Everdeen que é a garota “em chamas”. Toda Panem está, literalmente, em chamas. Por isso mesmo, os acontecimentos que vemos serem retratados nesta continuação nos fazem crer que “Jogos Vorazes: Em Chamas” é somente uma ponte para o que está por vir, a partir do instante em que a população, por meio dos olhos e da coragem de Katniss passa a enxergar a realidade pela forma como ela é. E, provavelmente, essa sensação é o melhor elemento deste longa, uma vez que, em termos cinematográficos, se comparado com “Jogos Vorazes”, esta continuação soa como um filme um pouco mais “apático”, mas não menos interessante, ainda mais nos termos que a narrativa se propõe a seguir, o que exige uma reflexão atenta da plateia – e isso é algo raro em filmes direcionados ao público infanto-juvenil.