Os exibidores brasileiros corriqueiramente espantam o espectador certo para alguns filmes com os títulos que escolhem. Portanto, vamos ignorar o ridículo título de Amor Bandido, e tratá-lo com o título original, Mud.
Apesar do título original, o filme é claramente mais centrado na figura de Ellis (Tye Sheridan, que você deve lembrar como um dos irmãos de A Árvore da Vida). Apesar do que o título brasileiro pode supor, Mud não é um filme romântico, tanto isto é verdade que o par de atores centrais, McConaughey e Whiterspoon, nunca dividem a cena. O filme é na verdade sobre aquela fase da vida em que perdemos a inocência e passamos, lentamente - ou não -, suavemente - ou não, para a fase da adolescência. No caso de Ellis, esta passagem percorrerá as segunda opções. Ellis enfrentará ao mesmo tempo a separação dos pais, a perda de seu lar - cuja estreita ligação com o rio se confunde com sua própria identidade, sua primeira paixão e desilusão amorosa, e na convivência com Mud, o encontro e a perda de uma forte figura paterna confundida com amizade.
Sorte do diretor Nichols (O Abrigo) que pôde contar com o talento do jovem Sheridan para explorar toda esta complexidade dramática. Sheridan é um dos principais motivos para assistirmos o filme, que em sua temática sobre amadurecimento parece num primeiro momento não apresentar nada de novo. Mas o diretor consegue nos prender a atenção, num ritmo suave e contínuo como o do rio Mississipi, cuja natureza onde está inserido se incorpora ao filme como mais uma personagem.
Nichols tem outras cartas na manga, como a surpreendente interpretação de McConaughey, que nos últimos tempos tem se esforçado em ser levado a sério como ator (sua interpretação no recente The Dallas Buyers Club tem sido muito elogiada pela crítica americana), uma excelente trilha sonora e o charme de acompanharmos um filme que se passa onde alguns chamam de "a verdadeira América" - o Sul dos Estados Unidos, com seus caipiras e seu estilo de vida que parece ter parado no tempo. Um equivalente ao sertão brasileiro, guardadas as devidas proporções.
Mud foi a terceira bilheteria para um filme independente nos Estados Unidos este ano, o que demonstra que sua locação e temática fora das grandes cidades, dos arranha-céus de Nova York e Los Angeles e sua gente neurótica e cosmopolita, parece ter surgido como um sopro de novidade junto aos cinéfilos americanos. A crítica também se derreteu à singeleza e charme do filme, exagerando talvez na acolhida. Mud pertence àquela espécie de filme que gostamos sem saber explicar o porquê. Passado o mal-entendido do título no Brasil, ele merece ser visto.