A sensação que se tem ao sair de uma sessão de Guardiões da Galáxia é a de se ter presenciado uma grande celebração da cultura pop. E é exatamente isto que o filme é.
Maior aposta da Marvel desde seu Homem de Ferro, lá em 2008, o filme nos entrega um grande agrupamento de referências que vão dos anos 70 aos 80, ao ponto que você provavelmente assistirá o filme várias vezes para capturar tudo que James Gunn deixou ali nos cenários.
A equipe que dá título ao filme é formada por completos desconhecidos para o público geral, inseridos dentro de um universo totalmente diferente ao que nos acostumamos com os filmes do estúdio até agora. E eles não sentem a menor vontade de nos explicar essas coisas, algo raro no cinema atual. Temos inúmeros elementos dos quadrinhos nos sendo apresentados, a raça alienígena Kree, a corporação Nova, Thanos, o Colecionador, Rocket, Gamora, Groot… Não faltam personagens diferentes nesse filme, e todos eles dispensam apresentações. A Marvel chegou num ponto de segurança onde ela se dispôs a explorar seu universo sem criar origens para isso. O único personagem que realmente apresenta alguma história de origem é Peter Quill (Chris Pratt), o personagem principal. O resto tem apenas uma introdução básica no filme e tudo está certo.
Isso funciona porque o roteiro se mantém em uma premissa básica. Ele não entrega surpresas, pelo contrário, os clichês da Marvel dominam o filme, mas o universo é tão expandido e explorado que isso se torna algo bom. A falta de profundidade trabalha, na maior parte do tempo, a favor dos personagens, deixando assim espaço para que a gente conheça mais a equipe como um todo. Rocket (Bradley Cooper) rouba a cena em inúmeros momentos com piadas que, muitas vezes, fogem do padrão Marvel para crianças (até piadas com sêmen surgem em dado momento). Outro ponto que mostra a total falta de vontade do filme em se levar a sério é como o grupo nos é mostrado. São anti-heróis fazendo um trabalho para, no fundo, se salvarem também. Coçadas de saco, bocejos, brigas e trocas de xingamentos são comuns sempre que todos eles estão em tela, o que torna tudo mais humano, mais relacionável. Até mesmo personagens mais bidimensionais, como Groot (Vin Diesel) e Drax (Dave Bautista) conseguem gerar uma empatia com o público e ter ótimas cenas, principalmente Groot, uma ótima surpresa no filme.
Tudo isso é embrulhado em um visual cheio de cores e luzes, dando vida a um universo muito mais vivo do que o que vimos em Thor, outro filme que explora o alienígena na Marvel. As naves são saturadas e se destacam no espaço, até mesmo a prisão tem várias cores quentes para dar o tom do filme. As cenas onde Groot mostra alguns de seus poderes sempre se tornam um espetáculo de computação gráfica. E, mais do que o visual, quem manda é a trilha sonora. Cheia de hits dos anos 70/80, a trilha é um personagem dentro do filme, aliada de Peter Quill, na figura de seu toca-fitas, dando momentos memoráveis, como a equipe surgindo na tela em meio a Cherry Bomb, ou o final com Jackson 5 e um Groot dançarino.
E, pequeno perto de tudo dito, temos o drama do filme. Assim como o roteiro, ele é básico, não se propõe a grandes ápices, e por isso funciona bem na maior parte do tempo. Os momentos de maior peso dramático acabam sendo os que servem para dar alguma profundidade para os personagens principais, como o desabafo bêbado de Rocket, ou suas cenas finais com Groot.
Alguns defeitos surgem aqui e ali durante o filme. Apesar de se arriscar em Guardiões da Galáxia, a Marvel ainda segue uma fórmula básica de sucesso, evitando matar personagens e repetindo algumas cenas que deram certo em outros filmes, como uma luta de Groot contra vários soldados, relembrando a cena entre Hulk e Loki em Os Vingadores. Gamora (Zoe Saldana) também não é muito explorada, mas nada consegue tirar o brilho do filme.
No final, parece que vimos uma volta às origens dos sci-fi nerds, misturado com todos os elementos de uma cultura que cresceu com os fãs dos quadrinhos. Referências a Footloose e Kevin Bacon, Howard The Duck, corrida espacial e muitos outros filmes fazem com que seja difícil não apreciar Guardiões da Galáxia, tocando numa parte extremamente preciosa para todo fã de cultura pop: a nostalgia. E tudo isso em um ambiente onde nada é ou deve ser levado a sério, é a diversão pura e simples, mais do que suficiente para a Marvel se consolidar ainda mais no cinema.