Filmes baseados em livros de ficção científica, onde comunidades pacíficas e teoricamente perfeitas são criadas existem aos montes por aí. Ficava a expectativa do que de realmente novo e interessante poderia sair deste O Doador de Memórias, baseado num romance do já longínquo ano de 1993. Àquela época, o discurso de comunidades criadas artificialmente já não era novo. Hoje, já é um tema mais que desgastado. O filme conta com um ótimo elenco, desde o jovem Brenton Thwaites que faz o jovem protagonista, passando ainda por nomes de peso como Meryl Streep, Jeff Bridges, Alexander Skarsgård, Katie Holmes e até uma morena Taylor Swift. A história é cativante, prende a atenção, e há boas ideias esmiuçadas pelo roteiro. O mundo preto e branco que ganha cor aos olhos do ‘Recebedor’ de memórias é bastante interessante, apesar de óbvio. Porém, a espinha dorsal do filme é frágil, afinal, colocar toda a dor e complexidade dos pensamentos e emoções humanas em uma só pessoa se mostra deveras inconsistente e estúpido. Contudo, o filme tem muitas ideias interessantes, que são mal desenvolvidas, e peca pela ingenuidade exagerada em contar seus dilemas. Tudo é mostrado com uma superficialidade atroz diante de um tema extremamente complexo. Isso reflete nos diálogos rasos e falta de fôlego nos instantes finais, passando ainda por erros grotescos de continuidade e uma capacidade impressionante de não causar impacto algum com o público. No caso deste filme, alguns minutos a mais seriam muito bem vindos, para que seu desenrolar fosse mais plausível. A impressão que dá é que o tema do filme simplesmente foi amenizado de uma visão mais cruel e realista para alcançar um público mais abrangente e infanto-juvenil. Não li o livro ao qual ele é baseado, mas tenho a nítida ideia de que teria condições de ser muito mais denso e profundo do que o filme demonstra ser. Um mediano passatempo, mas com um potencial enorme e um desfecho pálido e simplificado demais. Se Jonas, o protagonista vivido por Thwaites, com o pouco do bem e do mal causados pela humanidade sentiu-se tão afetado, imagino o que aconteceria se ele realmente tivesse visto mais do que o ser humano é capaz de fazer, tanto para melhor quanto para pior. Se ele realmente tivesse acesso a tudo, os dilemas que ele enfrenta seriam muito mais amplos e genuínos.