Aronofsky sempre trata em seus protagonistas um verdadeiro embate interior, onde os dilemas psicológicos fazem parte de toda a jornada moral, ética e dolorosa que vivenciam. Foi assim em Pi, com a genealidade e loucura de um matemático; em Réquiem Para Um Sonho, com a degradação humana proveniente do vício; em Fonta da Vida, com a busca incansável de um significado pra vida; em O Lutador, com as mazelas do auge e decadência de um ídolo; ou em Cisne Negro, com a busca pela perfeição. Aqui, em Noé, Aronofsky nos brinda com dilemas ainda mais contundentes, onde objetivando um bem maior, todo o mal deve ser lavado (literalmente com muita água), para que surja a redenção idealizada. Mais uma vez o diretor consegue exprimir densidade e emoção sem apelar para a obviedade e a função mecânica narrativa. Obviamente que todos conhecem a história da Arca de Noé, mesmo que superficialmente. O filme tem a grande qualidade de tornar toda ação o mais próximo de uma realidade possível, embora seja algo difícil para se crer a quem não tem resquício algum de religiosidade. Obviamente que há espaço para muita licença poética e metáforas, mas o filme não decepciona em nenhum aspecto. Chega a ser estranho ver um filme com tantos efeitos especiais ter uma densidade narrativa tão grande. A história é tão poderosa, que os efeitos parecem meramente secundários, embora ainda assim causem impactos visuais excepcionais. O visual do filme é tão belo quanto intenso, tanto na vibração das cores das partes paradisíacas, quanto na fria dureza da destruição. O elenco é muito bom. A personificação de Noé realmente precisava de alguém com o talento inegável de Russell Crowe. Ele consegue dar a profundidade exata que o complexo personagem exige. Aqui ele definitivamente se redime da vergonha que passou em outro filme recente, Um Conto do Destino. Jennifer Connelly, em sua segunda colaboração com Aronosfky e pela segunda vez fazendo esposa de Crowe, também se redime de sua atuação falha em Um Conto do Destino. Embora tenha pouco espaço para mostrar seu inegável talento, quando precisa ela dá conta do recado com bastante empenho. Anthony Hopkins faz Matusalém, e também aparece pouco, mas, como de costume, está impecável. E ainda tem Ray Winstone e a voz de Nick Nolte. Porém o elenco jovem me pareceu aquém do esperado. Emma Watson e Logan Lerman são bons atores da nova geração é já mostraram que têm talento, principalmente quando trabalharam juntos no ótimo As Vantagens de Ser Invisível, mas embora não tenham atuações sofríveis em Noé, eles destoam do resto do elenco mais experiente. De resto, sobra emoção no longa, com cenas marcantes e inspiradas, algumas que até me levaram ao arrepio. Incrível como um diretor extremamente talentoso e ótimo contador de história pode fazer com uma excelente enredo em mãos. O filme pode não ser fiel à história bíblica, mas com certeza levanta questões morais e éticas indubitavelmente impactantes, levando a reflexão, o que por si só já é um grande feito. Certamente não é um filme que agradará a todos, vide que um senhor ao término da exibição na sala lotada esbravejava “Um lixo! Puro lixo!”. Isso me fez relembrar que gosto realmente é uma coisa muito subjetiva e pessoal. Não gosto de seguir aqueles que dizem que se fulano não gostou de um filme foi porque não o entendeu. Eu costumo entender bem os filmes, mesmo os que eu não gosto. Mas o que vale é que gosto não se discute e eu altamente recomendo este filme. Mais uma obra marcante, densa e imperdível deste cineasta que cada vez mais me surpreende e cativa. Simplesmente brilhante.