Um dos herois mais conhecidos da Bíblia, a história de Noé está contida no Gênesis, primeiro livro do Velho Testamento, que fala, basicamente, sobre a criação do mundo como o conhecemos, bem como sobre a criação de Adão e a maneira como o ser humano, ao cair em tentação, iniciou um caminho que o levou à degradação e à maldade. O ápice do Gênesis é justamente um dos relatos mais emblemáticos da Bíblia, quando Deus, arrependido de ter criado o homem, decide subjugar a sua criação a um dilúvio de proporções épicas de forma a varrer toda a sua obra e recomeçar o mundo e, por consequência, a humanidade. Noé, um descendente da linhagem de Adão, foi o escolhido para fazer uma grande arca de madeira e abrigar nela, além da sua família, um casal de cada espécie animal existente, pois esses eram os únicos seres que viviam de acordo com a Criação.
Tal acontecimento é a premissa básica do épico dirigido e co-escrito por Darren Aronofsky. “Noé” retrata um mundo dividido entre a sombra/maldade e a luz/amor/medo. E tem uma história que, apesar das críticas de alguns grupos religiosos em relação à falta de verossimilhança com os relatos bíblicos, é o retrato fiel do Deus punitivo visto nos livros que compõem o Velho Testamento – uma imagem que contradiz muito com a figura de amor e de compaixão que temos do Senhor. A jornada de Noé, um homem visionário no sentido de ter sido o escolhido de Deus para uma missão muito difícil, é uma história de uma densidade emocional profunda, cujas peculiaridades são muito bem abordadas por Darren Aronofsky.
Ao ser o escolhido de Deus para garantir a preservação das espécies para o repovoamento da terra, Noé trouxe para si mesmo um peso muito grande. O peso de impor para a sua família as suas escolhas. O peso de impor para a humanidade em geral, mesmo que provida de uma maldade e egoísmo sem tamanho, as suas escolhas. Esse tipo de peso é algo que a pessoa carrega para a vida toda e a cegueira quase obsessiva e egoísta também de Noé visando cumprir o seu papel trará consequências que afetam não somente a ele mesmo, como também aos outros, especialmente aqueles de seu convívio mais próximo – a esposa Naameh (Jennifer Connelly); os filhos Shem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll) e a filha adotiva Ila (Emma Watson).
Porém, o lado mais interessante – e intrigante – de “Noé” é a forma como Darren Aronofsky estabelece uma metáfora que permeia boa parte dos 138 minutos de filme. Ela está contida naquela que é uma das mais brilhantes cenas vistas no cinema nos últimos anos. Com influências diretas de um dos momentos mais clássicos de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, longa de Stanley Kubrick, com o uso da excelente trilha sonora de seu colaborador habitual Clint Mansell, com um trabalho de edição competente de Andrew Weisblum, em poucos minutos, Aronofsky mostra a evolução da violência na humanidade. E é justamente esse o momento “eureka” de “Noé”. O filme não fala sobre um acontecimento bíblico, nem faz um confronto entre as visões criacionista e evolucionista – apesar de tudo isso estar presente na obra. O longa tem o propósito de discutir a violência humana, seja aquela praticada de homem para homem, seja a de marido para mulher, seja a de pai para filho, seja a de homem para mulher, seja a de irmão para irmão, seja a física ou a psicológica… É o exemplo perfeito de como a humanidade, espécie passível de falhas e em constante evolução, ainda tem muito a aprender.