No mínimo interessante quando Aronofsky resolve fazer um filme sobre essa história bíblica pra deixar bem claro, justamente, o quão ficcional tudo aquilo é e não passa de um (excelente) épico. Pra isso, enche o filme de coisas que qualquer pessoa em sã consciência sacaria ser mentira: um velho que distribui poderes comparáveis a Deus, diversos monstros feitos de luz e pedra, uma substância misteriosa que faz os animais dormirem, entre outras coisas. O que, pensando bem, não estaria muito distante de um homem encher uma arca com pares de diversas espécies de animais enquanto um dilúvio vindo de um poder divino atingiria a Terra.
Gostei do filme, como já imaginava que iria gostar, mas não tem como comparar com o resto da filmografia do diretor - que é impecável. Resultado: é o filme menos bom dele. Ainda assim, com todas as adaptações feitas em relação à história original (que é pequena na Bíblia, vale comentar), Aronofsky conseguiu criar um filme que escapa bastante do estereótipo de história bíblica, criou algo bem maior, que transcende a isso. Uma história que reverbera, por si só, dentro do universo criado pelo filme.
Mas nem tudo são flores. Enquanto os sonhos de Noé, e tudo o que concerne a fotografia e o design de produção do filme são impecáveis (a passagem em que Noé explica a origem do universo é lindíssima), eu nunca vi um elenco tão mal dirigido sob as mãos do cineasta, que sempre se destacou pelo rigor na direção de seus atores. Salvo Russel Crowe, que está muito bem, os outros têm momentos muito irregulares durante a trajetória: Emma Watson não atinge a emoção desejada numa cena que deveria ser mais impactante, Jennifer Connelly, que muitos amaram, não me convenceu com todo aquele exagero interpretativo, os atores desconhecidos são irrisórios e Logan Lerman, e sua barba perfeitamente bem feita em 95% do filme, está literalmente péssimo - além de parecer estar atuando em outro filme, destoa de absolutamente tudo o que está sendo construído ao seu redor.
É problemático, até por causa daquele Matusalém desnecessário, uma total representação de um deus ex machina anti-criativo e aquele vilão que só faz mal ao filme, mas entretém bastante. As cenas de ação são de um nível muito alto, porém, o que eu mais gostei no filme, mesmo, foi a trilha-sonora, que embala todos esses momentos, absolutamente um dos melhores trabalhos que eu ouço em muito tempo, provando que o Clint Mansell, mesmo não trabalhando muito, quando inventa de fazer uma OST, beira o genial, diferente de alguns compositores por aí que parecem reciclar-se o tempo todo. Só reforça a ideia de que Noé é um filme muito bom, sujeito a crescer ou diminuir com o tempo.
E, ah, vendo o resultado final, dá pra entender bastante o interesse do Aronosfky em contar essa história olhando sua filmografia: os personagens de Hugh Jackman em Fonte da Vida se assemelham bastante, ainda mais pela ótica de sua busca, retidão, devoção por algo que considera/advém do divino, uma força superior. A trajetória lá, das três fases inclusive, não difere muito da trajetória de Noé.