Sempre há um certo receio ao ver diretores estrangeiros representando o Brasil no cinema. O estereótipo usado poucas vezes agrada ou trata de coisas realmente interessantes de nosso país. Não é o caso de Trash.
A começar pelo elenco quase 100% brasileiro. Temos nomes grandes e pequenos, em um trabalho de direção exemplar do diretor Stephen Daldry. A trama também é brasileira em essência (embora os problemas sejam mundiais), traz elementos que conhecemos tão bem, personagens que podemos encontrar nas ruas de nossas cidades. Além disso, a corrupção sempre será um bom tema para se trabalhar e aqui se mostrou novamente em alta.
O filme conta a história de um grupo de garotos que, trabalhando num lixão, encontram uma carteira com pistas para incriminar um grande político do Rio e acabar com seu abuso no lugar. A partir daí entra então o estilo policial/perseguição, com o grupo correndo atrás de pistas e sendo perseguidos por policiais corruptos. A direção de Daldry viaja entre o submundo do Rio, indo do lixão à favelas e quebradas. A montagem, que mistura o passado (na figura de Wagner Moura) e o presente, funciona muito bem, ligando os pontos da trama sem parecer forçado.
A trama pesa. A polícia está tão (ou ainda mais) ruim do que a vista em filmes como Tropa de Elite, inescrupulosa, atacando e torturando garotos, tudo para molhar o bolso. Selton Mello é a cara dessa polícia, atuando muito bem num papel dramático pouco comum do ator (apesar de manter a malandragem característica dele estar presente). O grupo formado pelos garotos Rickson Tevez, Gabriel Weinstein e Eduardo Luis é perfeito, trazendo uma leveza clara de crianças, mas mesclando (e contrastando) isso com momentos de pura maturidade. Some Rooney Mara, Martin Sheen e Wagner Moura a isso e a fórmula fica incrível.
Outro ponto alto do filme é o cuidado com a trilha sonora. Há uma beleza incomum em como canções (em sua maioria, brasileiras) se misturam ao filme e se tornam parte das cenas. Momentos como a tortura ao som de música clássica, ou a apresentação de personagens ao som de funk trazem poesia para algo tão pesado.
Apesar de um paralelo grande com outros filmes policiais, onde Trash mais se encontra é na velha literatura brasileira, com Capitães da Areia. O livro de Jorge Amado é um ótimo paralelo por tratar tão bem da juventude esquecida às beiras da sociedade. É impossível não traçar comparativos entre os personagens do filme e os do livro, ainda mais no final. E temos o preconceito, muito bem trabalhado, visto na forma de vantagens para uma pessoa branca que um garoto negro não teria, afinal, para parte da polícia ele só pode ser um bandido. A meritocracia que a elite tanto gosta de bradar, o racismo, a homofobia, tudo pode ser visto no filme, o que torna o final ainda mais belo.
Por fim, a mensagem que o filme busca trazer é que a vitória na guerra depende de nós, o que não deixa de ser verdade. O convite para ir as ruas (e urnas) é algo já esperado do filme, mas, acima de tudo isso, o maior convite, este mais subjetivo, é tão simples quanto difícil de enxergar: depende de você mudar. Não adianta colocar alguém no poder, mas não ajudar no que você pode. Seja sendo uma professora numa comunidade ou um padre que tenta garantir o alimento e a proteção dos garotos da favela. O povo que sofre abusos, que não é branco, rico, educado ou endinheirado como a elite encontra um espaço em Trash, e ganha uma chance de levar algumas pessoas para um caminho melhor, ainda mais tão perto de uma importante eleição para esse povo.