Após o conturbado primeiro filme, esperava que a seqüência do reboot do meu herói preferido da Marvel Comics fizesse jus ao nome do personagem, e devo dizer que de uma certa forma ele honra o cabeça de teia nos dando um Homem Aranha zoeiro, trollador, moleque, um Homem Aranha cuja personalidade que o marca como um dos mais populares personagens dos quadrinhos,ficara sumida na trilogia de Sam Raimi e se destacou pouco no primeiro filme do reboot. Andrew Garfield mais uma vez faz um bom trabalho interpretando o aracnídeo, mas não posso dizer o mesmo de seu Peter Parker, uma versão descolada que já tinha ganhado origem no primeiro filme e causa uma certa estranheza em quem acompanhou o Peter azarado e introvertido. Ele faz um Peter que representa o jovem de hoje em dia,um Peter cheio de atitudes e farra, um que entraria facilmente pro grupo dos ´´ popularzinhos´´. É irônico ver Garfield fazer um Peter distante dos quadrinhos e ao mesmo tempo um Homem Aranha extremamente fiel ao cânone.
Esta lá o aranha que sempre quisemos ver, isso fica claro logo no começo do filme quando ele protagoniza uma divertida perseguição a um obcecado Aleksei Sitsevich ( Paul Giamatti, ótimo)ao mesmo tempo em que zoa e salva civis no meio do caos. Um desses civis é Max Dillon ( Jamie Foxx , regular)um ´´ zé ninguém ´´ que se sente invisível na sociedade e que vê no aranha um ídolo a se espelhar. O roteiro do filme tenta transformar Max num personagem complexo cheio de dilemas, um personagem mergulhado no fracasso e sendo pisado pelas pessoas o tempo todo e isso tudo gera uma raiva enorme dentro dele que combinado com o eventual acidente com enguias elétricas, acaba por transformar o zé ninguém no vilão Electro, personagem que dá nome ao título do filme. Como eu disse, o roteiro TENTA , mas a maioria das cenas protagonizada por Jamie Foxx antes de seu acidente criador de vilões, é ridícula e dispensável, seu breve diálogo com o cientista Alisthair Smythe ( B.J. Novak) é prova disso. O fracasso de sua vida o torna insano, mas ainda tinha seu herói, o Homem Aranha, no entanto uma reviravolta acontece e Max que antes adorava tanto o herói,passa a nutrir um ódio por ele, simplesmente porque quando a sociedade finalmente olha para Max, o aranha rouba os holofotes.
O Electro é um dos vilões que eu mais queria ver no cinema e infelizmente achei seu potencial mal aproveitado. Para piorar isso, na maioria das cenas com ele,principalmente a da Times Square, a trilha sonora que acompanha o dilema do vilão é irritante, uma trilha sonora que tenta fazer o espectador sentir tudo o que está acontecendo na cena, mas não funciona, existem momentos em que a trilha é totalmente dispensável. Electro é só mais um dos vilões que permeiam o filme, sendo o que mais se destaca após o azulão é o Duende Verde, que nesse filme virou o alter ego de Harry Osborn, muito bem interpretado por Dane Dehan que o faz com a mesma insanidade que seu personagem Andrew de Poder sem Limites. Seu Harry é o cara que vira o chefão das indústrias Oscorp tratando todos como seus criados. Ele tem problemas com seu pai Norman Osborn ( Chris Cooper, muito melhor que Willem Dafoe)e nos entrega uma ótima transição de um garoto calmo e perturbado para alguém insano , fator que justifica sua transformação em vilão. Apesar de ser um ótimo Harry Osborn , não posso dizer o mesmo do Duende Verde, que é claramente colocado no filme como uma introdução do personagem e para protagonizar uma cena clássica dos quadrinhos envolvendo Peter e Gwen , uma cena que somente os fãs mais devotos do herói entenderão.
Ah e falando na nossa querida Gwen Stacy, ela mais uma vez é muito bem interpretada pela Emma Stone e nos entrega momentos sinceros de uma garota apaixonada. Sem dúvida, a Gwen de Emma Stone é melhor que a Mary Jane de Kirsten Dunst, pois MJ amava o Homem Aranha, já Gwen ama o Peter Parker. Gwen também possui um arco interessante e dramático que poderia ser resolvido num eventual terceiro filme, mas fazer o que né ?.
Assim como o filme anterior, o novo longa continua investindo na fraca ( e inútil) história dos pais do Peter Parker. Uma história que está modificando as origens do personagem e de seus eventuais vilões. O pai do Peter trabalhava com o Dr. Connors e com Norman Osborn na Oscorp, lugar onde Peter é picado pela aranha e que origina o Lagarto, Electro, a tecnologia dos vilões Rino, Abutre, Dr. Octopus, Esmaga Aranha e posteriormente a simbiose do Venom. Sem falar da referência ao vilão Michael Morbius que pelo visto também trabalha na Oscorp. Outro personagem que também está ligado a empresa é Felicia Hardy, a sensual Gata Negra, que nesse filme não vira a anti-heróina, mas mostra seus dotes gatunos em uma cena em que ela aparentemente sabia mais sobre a Oscorp do que o filho do dono. Essa necessidade de se apoiar em coincidências, fazer todos os vilões estarem conectados de alguma forma e também alguns possuírem ligação com os experimentos que o pai do Peter fazia junto com Norman Osborn, torna a franquia do herói aracnídeo distante dos quadrinhos, uma coisa nova e irreconhecível. Sem falar nas mudanças de visual, principalmente o visual escroto ( e bota escroto nisso) do Duende Verde e até mesmo o Rino ´´ Transformer´´ . Esses tipos de conexão , mudanças de visuais, a necessidade de mudar muita coisa da mitologia do herói para fazer algo novo ou porque os roteiristas tem preguiça de fazer uma coisa bem bolada, torna tudo diferente do que os fãs mais devotos do herói acompanharam durante anos.
Como eu disse antes, o Homem Aranha zoeiro está lá, o filme nos mostra o cabeça de teia retratado da forma que sempre sonhamos em ver. No entanto, enquanto continuar insistindo nesse tipo de trama onde fazem o herói bem fiel ao cânone , mas profana o resto de sua mitologia , pra mim nunca será o Homem Aranha que eu cresci lendo e assistindo.