O ESPETACULAR HOMEM-ARANHA 2 - A AMEAÇA DE ELECTRO
Ele está de volta, outra vez.. desde 2002. Reescrever a história do aranha nas telas tem sido uma tarefa difícil para os roteiristas de Transformers e Star Trek (a dupla Orci e Kurtzmann), por que ainda não chegaram lá. Ainda não desta vez. Marc Webb (500 Dias com Ela) prossegue na direção do remake mais desnecessário do cinema atual.
Cabe ressaltar que nem por isso o resultado é ruim, mas às vezes parece atrapalhado. Impossível evitar comparações com a trilogia de Sam Raimi, até porque é arrebatou multidões, seja pelos até então inimagináveis voos por Nova Iorque reproduzidos por "spideycams", pelos ótimos vilões, pelo beijo de cabeça para baixo, ou pelos dilemas enfrentados pelo "amigo da vizinhança" que salvava a cidade mas não salvava o seu bolso de apertos financeiros.
Creio que a saga anterior funcionava melhor porque Peter Parker podia combater vilões, namorar, esconder-se da Tia May e amadurecer como herói, e cada tema era abordado por vez, de forma bem distribuída no longa. A trilha inesquecível de Danny Elfman era impecável, e tinha muito a ver com o roteiro.
Dessa vez, o "Espetacular" parece não saber onde quer chegar. Agora resolveu focar no misterioso desaparecimento dos pais de Peter, e transforma isso na principal subtrama, já que tem a ver com o surgimento da OSCORP, a com sua consequente transformação.
No fim do primeiro filme, ficou evidente que antes de qualquer interesse em combater o crime, Peter correria atrás de buscar respostas sobre o passado e descobrir ainda que matou seu Tio Ben.
O erro do roteiro começa dando a entender que reconheceu seu erro em fazer mistério demais e resolveu já revelar tudo, antes de mesmo do próprio Peter saber. Ainda por cima, esquece a questão da morte do Tio.
Andrew Garfield (Peter Parker/Homem Aranha) e Emma Stone (Gwen Stacy), funcionam muito bem, pois são bons atores, bem engraçados e emotivos mas são também traídos pelo roteiro, que de conversa em conversa, dá pistas do que o futuro os reserva.
Bom destacar também a ótima atuação de Sally Field, como Tia May. Tímida no primeiro, agora mostra-se mais entregue ao papel, carregando emoção e atuação digna de sua competência.
Parker é atormentado frequentemente por visões do pai de Gwen, morto pelo Lagarto no fim do primeiro filme. Após fazer a famosa promessa de que não se envolveria mais com a filha, quanto mais ele teimava, pior ficava a sua consciência e também os riscos que ela corria, por estar com ele na maioria das vezes que ele estava em ação.
Falando em riscos, os vilões da vez são três. Rhino (Paul Giamatti), desperdiçado e transformado em ponta, mas que traz boas cenas 3D, Electro (Jamie Foxx) e Duende Verde (Dane DeHaan).
Electro é o que mais toma tempo e dá trabalho pro aranha. Sua idéia é de um cara apagado no contexto, invisível, como dizem, e carente de atenção. Após ser salvo pelo herói durante sua luta com Rhino, cria uma obsessão, em especial pela fama que advém do seu sucesso com o povo de Nova Iorque.
Funcionário da OSCORP e encarregado pela parte elétrica do prédio, é chamado pra solucionar uma pane e acaba sofrendo um grave acidente que o transforma em um ser capaz de manipular, enxergar e se transformar em eletriciade pura.
Os dois protagonizam batalhas incríveis, ressaltadas pelo 3D.
Um destaque especial do confronto entre eles é como o "spider sense" é mostrado ao público. Em cenas de câmera lenta, entende-se que o herói praticamente prevê o futuro e se antecipa tomando medidas para evitar o mal maior, com condutas ágeis e inteligentes, São cenas criativas e muito legais. Outro destaque é a visão de Electro, que enxerga a eletricidade em todo lugar, inclusive em cabos enterrados, em fios e no corpos das pessoas. É assim que ele localiza fontes pra se alimentar, já que se comporta como uma bateria.
O Duende surge do reaparecimento de Harry Osborne (DeHaan), depois de muitos anos estudando no exterior, para acompanhar a morte do Pai, Norman.
Ao perceber que o Homem Aranha é o resultado bem sucedido da pesquisa do Pai e que seu sangue pode salvá-lo da doença que herdou geneticamente, propõe a Peter Parker a chance de obter a ajuda. Como não consegue, aí tudo muda, o ódio vem e a coisa fica feia entre eles. Confesso que não gostei de Dane, não sei se pela dublagem, que o deixa azedo demais, mas ele tem um bom momento quando assume a pele do Duende.
Já Rhino nada mais é que um gancho para o próximo filme. Soa paspalhão e não mete muito medo. Até uma criança é capaz de peitá-lo, literalmente.
Para os mais atentos, as evidências para o Sexteto Sinistro são claras. Nas instalações da OSCORP podemos ver os braços do Dr Octopus, as asas do Abutre (e o provável usuário delas no futuro), e a presença da Gata Negra, ainda não revelada dessa forma, mas presente como assistente pessoal de Harry.
As cenas de ação são excelentes e empolgantes mas são distantes umas das outras. As boas piadas do aranha e suas caracterizações como usar chapéu de bombeiro ajudam a enriquecer as cenas. O problema é o enorme hiato entre elas preenchidos com a busca sobre a verdade dos pais de Peter. O bom é que tudo é esclarecido de uma vez e não fica rastro pra que a chatice continue.
Uma menção especial também pode ser dada pra trilha sonora, que agora nas mãos de Hans Zimmer (Cavaleiro das Trevas, Gladiador), trouxe um altruísmo maior para o herói além de caracterizar bem os vilões, principalmente Electro, que tem um tema bem específico e inovador. Trocar James Horner é uma das provas que o filme precisava de reparos.
Na tentativa de apresentar um Parker cheio de dilemas e pressões o filme acaba entulhado. São subtramas demais. Personagens demais. Acaba que o filme fica extenso, um pouco cansativo nos hiatos entre as cenas de ação e mesmo assim parece que não deu tempo falar de tudo.
Nem Stan Lee teve a aparição merecidamente engraçada que sempre tem. Foi boba de fazer vergonha.
O filme, pra ser visto descompromissadamente, é muito bom. É bem feito, com ação de primeira, 3D compensador, boas interpretações e um toque de romance pra derreter o coração das moças, mas eu entendo que o que Marc Webb quis com seu filme foi, em primeiro lugar, ser mais fiel aos quadrinhos. Em segundo, ser diferente do anterior, e por último ser melhor.
O primeiro ele conseguiu, adotando Gwen como verdadeira paixão de Peter, o lançador artificial de teias e outras tramas.
Fazer diferente também conseguiu mas acho que onde ele tentou ser diferente foi onde o anterior era melhor. Exemplos: Transformar o dia-a-dia de Peter como pessoa comum, com um terno no guarda-roupa, morador de aluguel endividado, fotógrafo free lancer, fazendo bicos como entregador de pizza, passando necessidade de verdade e ainda tentando esconder de todo mundo sua identidade secreta (Ufa!) em um Peter moderno, não tão pobre assim, mais focado em mistérios do passado e se revelando mais facilmente nos impede de se identificar rapidamente com ele. Parece que o novo sentido é a quantidade de problemas e não a forma como ele se vira pra resolvê-los. Nisso o outro filme era muito melhor.
Outro: Transformar um dos mais interessantes e bem caracterizados personagens da história da Marvel, James Jameson (JK Simmons), diretor do Clarim, em um email e uma menção é digno de repúdio. Prova de que o filme já tinha elementos em excesso.
Por último, ser melhor. Não é! Precisa se esforçar mais pra arrebatar novamente. Refazer uma trilogia excelente apenas 10 anos depois é cair na mesma armadilha na qual entrou Peter Jackson, e que não caiu Cris Nolan com seu Cavaleiro das Trevas porque isso é tarefa pra gente muito brilhante e menos focada em ganhar dinheiro.