O reinício da franquia do “Homem-Aranha”, como imaginado pelo diretor Marc Webb, passa muito pela tentativa de responder ao seguinte questionamento: “quem sou eu?”. Foi isso que norteou a trama de “O Espetacular Homem-Aranha”; e, de uma certa maneira, é esse questionamento que continua movendo Peter Parker (Andrew Garfield) durante a sequência “O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro”, também dirigida por Marc Webb.
Em adição a essa grande pergunta, por trás de Peter Parker existe uma outra motivação muito importante: o medo. Pela sua história de vida; pelo histórico de perdas que ele sofreu (os pais e o tio Ben); pelo sofrimento que ele causou àquela que ele mais ama, Gwen Stacy (Emma Stone), a partir do momento em que ela perdeu o pai (Denis Leary); vemos uma personagem central completamente consciente de suas ações e dos efeitos que elas possuem: “todos os dias, eu acordo sabendo que, não importa quantas vidas eu proteja, não importa quantas pessoas me chamem de heroi, algo mais poderoso pode mudar tudo”.
O roteiro de “O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro”, escrito por Alex Kurtzman, Roberto Orci e Jeff Pinkner, retrata um momento de ruptura e de mudanças profundas para Peter Parker – talvez, transformações mais fortes do que a que ele sofreu a partir do instante em que foi picado pela aranha geneticamente modificada que alterou todo o curso de sua vida. Nas muitas perguntas que o roteiro lança, no decorrer dos 142 minutos de filme, vemos Peter analisar, não só o seu relacionamento com Gwen, como os acontecimentos que levaram à morte de seus pais (Campbell Scott e Embeth Davidtz), o seu papel como Homem-Aranha para a cidade de Nova York e as responsabilidades que advêm de manter escondido um segredo, bem como a busca pela verdade – que são as questões cruciais que rodeiam um herói tão humano como Peter Parker.
Além disso, de forma a justificar o status de protetor oficial da cidade de Nova York contra os vilões que ameaçam a cidade, “O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro” coloca a personagem central contra duas forças da maldade muito poderosas: Max Dillon/Electro (Jamie Foxx) e o ex-melhor amigo de Peter, Harry Osborn/Duende Verde (Dane DeHaan, o jovem ator novo queridinho de Hollywood). Os dois vilões possuem muito em comum com Peter Parker. Enquanto o primeiro vivia uma existência à margem da sociedade, excluído como Peter Parker era e que vive em busca de algo que o faça se destacar perante os demais; Harry vive uma busca particular por algo que o salvasse e, para isso, tenta contar com a lealdade do seu amigo.
Uma pena que dois vilões tão ricos, do ponto de vista dramático, tenham sido relegados a um ato final em que tudo acontece ao mesmo tempo agora. Como o roteiro lança muitas perguntas as quais ficam sem respostas satisfatórias, “O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro” acaba sendo um filme que continua a tentativa de Marc Webb de redefinir esse personagem, adotando um caminho mais fiel ao Peter Parker das histórias em quadrinhos (notem a sua personalidade sarcástica e quase tiradora de onda com os cidadãos nova iorquinos e os vilões que ele enfrenta), mas que, de uma certa maneira, decepciona por não fazer uma evolução grande ao que assistimos no primeiro filme. Uma pena também que a cena que deveria ser o ápice emocional de “O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro” fique perdida em meio à tanta correria. Não temos tempo de vivenciar a emoção do momento e só ficamos com a certeza de que a trajetória de Peter Parker, ao contrário do que Sam Raimi nos fez acreditar, na sua trilogia original, é um caminho tortuoso, repleto de sombras, em que o personagem tem que se doar mais e se sacrificar mais em prol de um bem muito maior.