A clássica história de Victor Hugo, foi adaptada na própria França para ser um musical, pela dupla Schönberg e Alain Boublil há 26 anos atrás. O sucesso aconteceu mesmo via Broadway, de onde foi exportada para o mundo todo. Les Misérables é na verdade uma ópera moderna, e não um musical, ao menos no conceito de cinema para musical, onde os atores cantam e dançam. Em Os Miseráveis os diálogos e pensamentos das personagens são todos cantados.
A montagem da Broadway é tão conhecida e famosa, que muitas de suas músicas são populares, mesmo entre aqueles que nunca assistiram à montagem teatral, ao vivo ou em alguma produção da TV. A dupla francesa Schönberg & Boublil inclusive criou uma composição original para o filme.
O diretor inglês Tom Hooper pareceu uma escolha estranha para dirigir esta versão para o cinema do sucesso da Broadway, mesmo com o sucesso que obteve com o recente O Discurso do Rei. Hooper se saiu bem, mas em nenhum momento seu talento limitado proporciona ao filme alçar voo próprio como filme, restando assim uma adaptação apenas correta da versão original do teatro. Fico imaginando que o resultado teria sido bem superior como cinema se houvessem entregue a tarefa à diretora americana Julie Taymor, sempre visionária criadora em filmes como Across the Universe e A Tempestade.
Acho que a sorte de Hooper foi ter contado com um número tão grande de atores talentosos. Hugh Jackman se sai muito bem como Valjean, tanto no canto como na interpretação, o mesmo podendo ser dito de Anne Hathaway, marcante em uma pequena participação. Hooper exigiu bastante dos atores, explorando o máximo os closes e planos fixos nos solos cantados. A cena mais marcante de Hathaway - quando ela canta a conhecidíssima I Dreamed A Dream - foi feita toda em uma única tomada, sem cortes, e em plano fechado. Embora até ridicularizado por alguns críticos, acho que Russel Crowe está bem no papel de Jovert. Sem esquecer a dupla deliciosamente divertida encarnada por Helena Bonham-Carter e Sacha Baron Cohen, como o casal Thénardier, responsáveis na minha opinião pela melhor sequência do filme, onde Hooper realmente se superou. Mas o grande trunfo do filme com relação ao elenco vem daqueles chamados de "elenco de apoio", atores desconhecidos com pequenos papéis na trama, com destaque para o muito jovem Daniel Huttlestone, interpretando (e cantando com desenvoltura) o menino Gavroche.
Os Miseráveis começa muito bem, e suas primeiras sequencias se desenvolvem com fluidez - chegamos até a nos acostumarmos com os diálogos todos cantados. Mas quando o filme dá um salto no tempo, e já encontramos Cosette adulta, parece que a trama começa a se arrastar, fazendo pesar suas quase 2h30min de duração. É claro que toda ópera clássica tem como história principal uma história de amor, sendo todo o resto apenas um pano de fundo. Os Miseráveis tem até a vantagem de apresentar mais de uma história de amor, na verdade - a de uma mãe por sua filha, a de um pai por sua filha adotiva, a de jovens por uma causa, e a de uma moça em seu amor não-correspondido. Mas aquela que deveria ser a história de amor principal, de Cosette e Marius, não nos desperta simpatia nem atenção, talvez porque no filme eles não enfrentem de verdade nenhuma grande dificuldade para viver sua paixão, ou talvez porque a esta dupla especificamente falte o carisma que encontramos de sobra no restante do elenco.
É claro que Os Miseráveis tem uma produção impecável, que nos transporta para a época retratada, mas tudo é muito "comme il faut" (adequado), como diriam os franceses, deixando aquela sensação de "esperava mais". Há poucas cenas de destaque, isoladas, que na verdade se destacam mais devido à qualidade das canções. Hooper se esforçou demais em fazer o público esquecer a origem teatral do material filmado, abusando dos closes, e angulações de câmera espetaculares, esquecendo que poderia ter tirado partido de uma fusão teatro-cinema para abordar a história. No geral, pode-se até dizer que ele não foi melhor sucedido que Carol Reed quando adaptou para o cinema o musical Oliver ! - baseado no clássico de Charles Dickens, com o qual Les Misérables guarda muitas semelhanças.