Esperei com ansiedade por esse filme desde o lançamento do trailer há 8 meses. Esperei e me decepcionei. Gosto de literatura, de musicais, a obra de Victor Hugo é um clássico universal, alguns atores foram incríveis, mas o diretor Tom Hooper, vencedor do Oscar com o filme “O discurso do Rei” conseguiu o feito de destruir quase todas as minhas expectativas. Ao final do filme eu tive a impressão de que ele teve tudo nas mãos para criar um filme que fizesse o público derramar fios de lágrimas, mas por algum motivo, ele deixou essa grande oportunidade escapar entre os dedos. Mas enfim, por que “Les miserables” foi uma decepção para mim?
Em primeiro lugar, como já mencionei, a falha principal foi mesmo de direção. Tom Hooper sabia pra onde ia mas não exatamente o que queria. Talvez ele soubesse o que queria de cada ator, mas não da história de seus personagens. Era como se ele tivesse pensado: “Eu preciso contar a história desse personagem porque está no livro, mas não sei como encaixar no formato de um filme”. Talvez isso seja fruto de uma missão quase impossível: adaptar tanta história em tão pouco tempo de filme. Penso que uma trilogia fosse mais apropriada.
A primeira cena do filme que mostra Jean Valjean (Hugh Jackman) ainda na situação de prisioneiro serviu como exemplo de um erro que iria se repetir, ouso dizer, por todo o filme: uma atuação legal, um cenário bem construído, atraente, fundo musical envolvente, mas com história emocionalmente rasa. Acho que uma das razões disso tenha sido a falta de foco do diretor. Muitas histórias, muita cantoria, muitas caretas, mas faltou no mínimo uma única história que criasse um vínculo emocional com o público. O que quero dizer é que eu não consegui me comover nem me importar com o sofrimento de nenhum personagem e acho que essa foi uma sensação geral. Isso é um problema grave num filme que busca traduzir o justamente o sofrimento humano!
A primeira chance que o próprio filme deu ao diretor de contar uma história envolvente foi quando Jean Valjean conquistou sua liberdade condicional. Enfim, o homem que ficou preso durante 20 anos por roubar um pouco de pão para alimentar a irmã estava livre e queria reconstruir sua vida. A segunda chance foi quando Fantine (Anne Hathaway) foi demitida, se tornando automaticamente mais uma miserável. Qualquer uma dessas duas histórias, ou mesmo as duas juntas, abordadas de forma diferente, poderiam render um filme interessante. Mas o diretor preferiu dar quase a mesma importância a outras histórias paralelas: um movimento popular revolucionário pós Revolução Francesa, a história de amor de Cosette, filha de Fantine e em menor grau o sofrimento da moça que gostava do futuro namorado de Cosette. Como se não bastasse todas essas histórias com fragilidade e pobreza de contexto e sem nenhuma profundidade emocional, há ainda duas situações estranhas, a segunda até cômica. O casal que criava Cosette não conseguiu ser engraçado nem cruel, embora fosse essa sua finalidade. A maquiagem estava ok, os atores eram ok, mas na sala de cinema ninguém riu nem sentiu raiva. A segunda situação foi a de Javert (Russell Crowe). O personagem poderia ter uma participação marcante, já que era o inspetor que perseguia Jean Valjean. Mas passou o filme como um personagem perdido, que aparecia aqui e acolá como um fantasma, sem dizer de onde vinha nem pra onde ia.
Eu quis acreditar no filme quando ouvi Anne Hathaway cantando “I Dreamed a Dream”. Interpretação perfeita. As expressões de rosto e olhar da atriz e sua voz trêmula traduzem toda a dor e sofrimento do momento em que vive, sem contar que cantou muito bem. A maquiagem, o cenário, a iluminação, tudo ok. Pra mim foi a melhor cena, que conseguiu talvez refletir a seu modo um pouco do realismo contido na obra de Victor Hugo, o realismo que pretendia retratar a situação de vida de um ser humano entregue à miséria.
Como não deu certo com Fantine, eu quis acreditar no filme através da vida de sua filha, a pequenina Cosette (Isabelle Allen). Esforço em vão. Depois vieram as cenas de guerra, o drama amoroso da jovem Cosette, mas nada, nenhuma dessas histórias conseguia envolver. Eram como quadros expostos num museu diante de olhares leigos. Chamavam a atenção pelas cores e formas, mas não significavam nada. O melhor exemplo disso foi com Éponine (Samantha Barks), uma moça que sofria por seu amor não correspondido por Marius (Eddie Redmayne) que, por sua vez, se apaixonou por Cosette. Era impossível se sensibilizar com a dor dessa moça, embora sua atuação tenha sido legal. Faltou contexto.
Após a morte dos revolucionários o filme chegou a um ponto de saturação com tanta cantoria, quando os ouvidos suplicavam um simples diálogo em cenas perfeitamente apropriada para tal. Deu sono, nervosismo, vontade de levantar e ir embora. Mas eu queria ficar até o final para concluir minhas impressões.
Devo reconhecer que o filme foi legal quanto à maioria dos outros aspectos: cenário, figurino, trilha sonora, maquiagem, arte, som. Além de Anne Hathaway, destaque para a interpretação de Hugh Jackman. Gostei em especial da primeira cena do filme com os prisioneiros trabalhando, e de algumas cenas do povo Francês cantando nas ruas.
Se posso citar cenas que me comoveram, foram quando Fantine se sentiu obrigada a vender seus cabelos e depois dois dentes para comprar roupa e remédio para a filha. Se existe uma coisa que Anne Hathaway sabe fazer muito bem é chorar, e isso foi bem explorado.
Minha impressão final é de que o filme é tocante em poucas cenas isoladas. Mas só isso. O filme, como um todo, não comoveu e, creio eu, essa era sua principal missão.