Como transformar um conto clássico de cinco minutos em um longa-metragem sem perder a sua essência? "O Touro Ferdinando" tenta responder a essa pergunta com um misto de encanto visual e decisões narrativas divisivas. Se você já se sentiu pressionado a se encaixar em um molde que não era o seu, essa história sem dúvida ressoará com você, mas será que a execução cinematográfica faz jus à grandeza da mensagem original? Prepare-se para desvendar os altos e baixos dessa animação que diverte, emociona, mas também tropeça na própria ambição de agradar a todos.
Do ponto de vista estético, o filme carrega a inegável e colorida assinatura de Carlos Saldanha. As paisagens da Espanha rural são retratadas com uma paleta de cores quentes e terrosas que contrastam belissimamente com o vermelho vibrante das flores de Ferdinando. O design de personagens é redondinho e amigável, perfeito para o público infantil. No entanto, sinto que a animação, embora competente, não ousa ir além. Quando comparada às texturas hiper-realistas da Pixar ou à estilização inovadora que começava a surgir na mesma época com produções como Homem-Aranha no Aranhaverso, a estética de Ferdinando parece segura e conservadora demais, entregando um visual bonito, porém genérico.
Onde o filme realmente acerta no alvo é na construção do seu protagonista. E aqui, a escalação de John Cena (na voz original) foi uma jogada de mestre. A metalinguagem de ter um lutador profissional musculoso dublando um touro gigante que odeia brigar adiciona uma camada deliciosa à narrativa. Cena entrega uma vulnerabilidade e uma doçura genuínas que nos fazem torcer por Ferdinando desde o primeiro instante. É a jornada dele, tentando manter sua essência gentil em um mundo que exige sua agressividade, que ancora o filme e impede que ele descarrile.
Como sustentar uma leitura infantil tão rápida (o livro original tem pouquíssimas páginas) em uma tela de cinema por quase duas horas? A solução do estúdio — desenvolver o passado do protagonista e adicionar subtramas — tem altos e baixos. O primeiro ato funciona bem ao estabelecer a infância de Ferdinando e criar empatia. Contudo, o segundo ato sofre com uma clara "barriga" narrativa. O ritmo cai bruscamente e o enredo parece patinar, inventando conflitos menores que não agregam à história principal apenas para justificar a duração de um longa-metragem.
Se Ferdinando é o grande acerto, o elenco de apoio adicionado gera o maior atrito da obra. Figuras como a cabra Lupe (cuja voz original de Kate McKinnon beira o exaustivo) e o trio de ouriços dividem drasticamente a opinião. Para mim, eles cruzam a linha do carisma e tornam-se figuras irritantes. Fica a nítida sensação de que foram desenhados em uma prancheta de marketing corporativo com o único propósito de vender brinquedos de pelúcia e gerar spin-offs. Eles sugam um tempo precioso de tela que deveria pertencer exclusivamente aos dilemas internos do touro.
Acompanhando a estrutura da obra, percebo que a direção optou pelo caminho de menor resistência. O roteiro se apoia excessivamente na velha fórmula do "desajustado que prova o seu valor". Para tentar modernizar a trama, a animação abraça um humor físico repetitivo e piadas que quebram a imersão. O ápice dessa preguiça criativa é, inegavelmente, a longa "batalha de dança" entre os touros e os cavalos alemães. É uma cena que causa pura "vergonha alheia", soando como uma tentativa desesperada, datada e sem inspiração do estúdio de fabricar um meme instantâneo para viralizar na internet.
Outro aspecto profundamente mediano e problemático da obra é sua dificuldade de lidar com os temas reais que a sustentam: as touradas e o matadouro. Há um evidente choque de tons. Ao levar os personagens para o abatedouro (a "fábrica de carne"), o filme torna-se subitamente sombrio, quase aterrorizante para crianças menores, criando um clima de tensão pesada. Por outro lado, a crueldade inerente das touradas na arena soa demasiadamente higienizada. Essa hesitação em abraçar a seriedade da mensagem ou suavizá-la de vez faz com que a execução pareça indecisa, sem a profundidade e a maestria emocional que roteiros mais maduros costumam entregar.
"O Touro Ferdinando" é uma experiência mediana que brilha ao transmitir uma mensagem de extremo valor sobre autoaceitação, respeito às diferenças e não-violência, mas que acaba se autossabotando com vícios comerciais, personagens secundários exaustivos e um humor irregular. Mesmo sem a sofisticação e a ousadia das grandes obras-primas da animação contemporânea, a doçura inegável e as boas intenções do seu protagonista conseguem segurar as pontas. É um entretenimento imperfeito, sim, mas com um coração enorme. Por isso, recomendo fortemente que você assista ao filme de peito aberto e tenha a sua própria experiência: mergulhe no pasto florido de Ferdinando e descubra, por si só, se o encanto desta mensagem atemporal compensa os tropeços criativos da arena.