Uma mistura explosiva do Complexo de Édipo com a psicopatia do gângster americano faz com que o protagonista de Cagney sufoque tudo e a todos ao seu redor. A razão de ser do filme acaba sendo essa exploração dos limites transpostos pela figura de Cody Garrett dentro de uma dualidade peculiar que transita entre um Clyde Barrow e um Norman Bates.
Ainda que o desfecho desse protagonista esteja dentro do estabelecido pelo Código Hays, ele não consegue concretizar uma lição moralista a partir desse já previsível desenlace. O que fica, realmente, na memória do espectador, é o modo como Walsh enquadra Cagney, com sua peculiar feição insana de criança precocemente embrutecida, um adulto que ainda carrega aspectos juvenis no seu descontrole perante o imprevisto. Sem o Cody de James Cagney não existiria o Tommy de Joe Pesci, e isso é tão evidente que nem necessita grandes justificativas.
No encalço de Cody, as manobras policiais recebem atenção especial de Walsh numa orquestração que explora o uso de diferentes dispositivos persecutórios, modernos para a época, nesse jogo de gato e rato que permeia o filme. Tudo isso é retratado de modo tão meticuloso, até insistente em demasia, que não há qualquer dúvida acerca da inevitabilidade do desfecho do protagonista (deixando de lado a óbvia necessidade desse final que contemple o Código citado).
Com isso, a tensão é progressiva no sentido do adiamento de conflitos que, pelo tudo que já conhecemos, incitarão em alguma reação desmesurada do personagem de Cagney. Se o próprio embate franco é articulado de modo econômico por Walsh, simplista mesmo para os meios disponíveis na época, isso reforça ainda mais que o destino de White Heat está sempre à mão de Cody, e sendo assim, ele será o mais autodestrutivo possível.