O cineasta Louis Leterrier é conhecido por dirigir os últimos filmes de ação do novo século mais conhecidos entre os amantes do gênero. Entre as produções estão os genéricos Carga Explosiva (2002) e Carga Explosiva 2 (2005), ambos protagonizados pelo astro Jason Stathan; o alucinante Cão de Briga (2005), estrelado por Jet Li; o primeiro filme do gênero herói do cineasta, talvez um dos trabalhos mais conhecidos do diretor: o morno e nada surpreendente O Incrível Hulk (2008). E dois anos depois o fracasso de crítica e público Fúria de Titãs (2010) que apesar de tudo rendeu uma sequência. Percebe-se que desde então Leterrier não estava parando, e três anos após seu último trabalho chegaria aos cinemas Truque de Mestre (2013), dirigido pelo francês.
Batendo o olho no currículo de Leterrier, percebe-se que o cineasta é um excelente diretor de filmes de ação. Sendo assim, sua capacidade talentosa — pelo menos até o presente momento — se resume ao gênero. Então, no geral, Truque de Mestre não seria um desafio para o diretor, já que era um material que visava entreter. E para entreter e prender o espectador na cadeira, Leterrier e os roteiristas Ed Solomon e Boaz Yakin usaram da zona de conforto do diretor; a ação, que no geral funciona bem.
O enredo de Solomon e Yakin acompanham quatro mágicos independentes: Daniel Atlas (Jesse Eisenberg); Merrit McKinney (Woody Harrelson); Henley (Isla Fisher); e Jack Wilder (Dave Franco), que certo dia são reunidos para formar os Quatro Cavaleiros e apresentar atrações de alto nível e patrocinadas por uma entidade misteriosa por todo os Estados Unidos. Porém, numa de suas apresentações, Os Quatro Cavaleiros provam que não são simples mágicos e realizam um roubo num banco da França. Desde então, o FBI põe os olhos no grupo, e o agente Dylan Rhodes (Mark Ruffalo), a cargo do caso, fará de tudo para conseguir provas e provar que os mágicos são criminosos fajutos.
Definitivamente, para escrever sobre este filme, é preciso pensar um pouco. Não, não é por que é fantástico e confunde a cabeça do espectador de maneira inquisitorial. Toda a confusão está no plot twist do filme, revelado ao final do longa, e para lá de inútil e incoerente. Incoerência essa que fica a cargo dos roteiristas, que transformam determinado personagem no Quinto Cavaleiro, descartando boa parte da ação do filme, e tornando todo o seu desenvolvimento inútil — não sei quantas palavras são possíveis para descrever a babaquice dos roteiristas, na tentativa fraca e frustrante de dar uma reviravolta impactante.
E não é apenas o plot twist, propriamente dito, que é confuso. Boa parte das ações dos personagens não têm motivos plausíveis. Vide o personagem Thaddeus Bradley, de Morgan Freeman; confuso, numa tentativa de colocá-lo sob a mira de suspeito do espectador, Bradley oscila, assim como o plot twist final, de maneira bastante incoerente entre os dois lados da moeda. E acredite, não há explicação plausível se quer que dê a entender por que motivos Bradley ajuda o FBI e prejudica o grupo de mágicos, ou vise-versa. Ele vai assisti-los, fica a espreita, liga para o FBI para ajudá-lo na solução de algumas mágicas, tem atitudes suspeitas para cair na dúvida do espectador, mas o personagem de Freeman, além de estar ali só para ocupar espaço, tem apenas como função explicar boa parte dos truques dos Quatro Cavaleiros.
Uma das que caem na graça do público, a agente francesa Alma Dray (Mélanie Laurent), salvo algumas cenas boas, está ali apenas para ser interesse romântico de Dylan e assim como o personagem de Freeman e de Michael Cane, que interpreta Arthur Tressler, se tornar suspeita aos olhos do espectador. Dito isso, a personagem de Laurent se torna completamente desperdiçada, simplesmente por que esta poderia ser muito bem explorada e assim enriquecer à trama.
E mesmo sendo um fator interessante e um dos principais que prendem o público à cadeira, a ação de Leterrier, em alguns pontos, não se encaixa com a estética do filme. De fato, se confiaçem mais na ideia, deixassem Leterrier e construíssem o roteiro em cima do gênero drama, Truque de Mestre poderia ser considerado um dos melhores filmes de 2013, não só pela parte do público — que já o considera — mas também pela crítica.
O roteiro oscila bastante entre regular e bom. Regular graças aos truques engenhosos e geniais, e suas soluções nada fáceis de pensar que enriquecem ainda mais a produção; e regular graças a ação que ocupa mais espaço sobre algo bastante importante, que em Truque de Mestre não ganha atenção — o desenvolvimento dos personagens.
De fato, o grupo de mágico, que são os protagonistas, são bem apresentados e definidos, só que... Do primeiro ato para frente o desenvolvimento é deixado de lado e a corrida gato e rato — que apesar de tudo é bem abordada — clama por mais atenção. E quem sofre mais com esse mal desenvolvimento é o personagem de Dave Franco, que é descartável quanto a boa parte do filme. Fora isso, o grupo tem ótima dinâmica, seus atores interpretam seus respectivos personagens bem e conseguem ser tão carismático quanto o núcleo restante do filme.
Apesar de pouco, Truque de Mestre também trata sobre como as pessoas são enganadas tão facilmente, e como gostam de ser. Afinal de contas, se tratando principalmente de um filme de mágica, esse fator não poderia faltar e ser deixado de lado.
De fato, Truque de Mestre não é um filme fascinante. Mas é bom, e delicioso de assistir ao fim da tarde, não deixando o espectador com vontade de abandonar a sessão em nenhum ponto por conta do seu ritmo constante — atributo de Leterrier. Que venha a sequência, e que seja tão boa quanto!
Nota: 6.9/10