Primeiro de tudo, Gravidade está bem além de ser um simples filme. Está mais pra um acontecimento. Não só pelo grande hype em torno de tudo o que veio da nova produção de Alfonso Cuarón nos últimos dois anos, e que se intensificou nos últimos meses, como a forma com que ele foi feito. Certa vez, James Cameron disse que o que Cuarón tinha em mente estava muito à frente do que a tecnologia atual poderia conceber. É muito cedo pra dizer, com certeza, se ele estava correto nessa afirmação, mas o que o diretor de Filhos da Esperança fez aqui, tecnicamente, é algo quase infilmável. E é inacreditável que o resultado tenha saído tão bom.
Dos efeitos especiais até à edição de som (incrível), passando pela montagem e a trilha-sonora, o filme triunfa ao confrontar os seus personagens com situações de perigo iminente. E é a vida que está em risco. Genial, entretanto, é a direção de Alfonso Cuarón. O cara, que faz os melhores planos-sequência da atualidade, simplesmente se superou aqui. A sequência inicial, de longos e longos minutos ininterruptos, até o momento em que o corte explícito é finalmente feito, é um desbunde visual. E esse aspecto técnico talvez seja o que mantém a imersão no Universo - literal - de Gravidade, tão constante.
O filme é do diretor, definitivamente, mas é incrível como uma atriz que sempre foi mediana - inclusive em na atuação que lhe concedeu um dos Oscars mais absurdos dos últimos anos - dá tudo de si e entrega uma atuação GRANDE. Sandra Bullock atinge todos os níveis interpretativos exigidos para que Ryan Stone conseguisse segurar o filme praticamente sozinha. Há uma cena em específico, no grande ápice dramático do roteiro, em que Bullock eleva-se pela primeira vez ao status de uma grande atriz. E então, finalmente, se torna uma atriz possivelmente Oscarizável. É, sem dúvidas, a atuação de sua vida.
[podem haver spoilers]
Durante boa parte do filme, existe um certo rigor em rechear o filme de ações, e reações, cenas em que a protagonista é colocada no limite da vida e tem que lutar com o que tem em mãos, e assim, poder surpreender quem está assistindo. Isso, durante os dois primeiros atos do filme, compromete a jornada da personagem, mas, por outro lado, eleva a experiência cinematográfica. De qualquer forma, é no terceiro ato que o filme justifica o que veio antes, e o conflito existencial da personagem é colocado em cheque, finalmente. A cena em que Ryan imagina Matt, e consegue pensar em uma saída pra situação limite que estava vivendo, pode parecer preguiçosa pra alguns, mas me surpreendeu positivamente no sentido do desenvolvimento narrativo da mulher. Afinal, ela estava sozinha ali, no espaço, vagando sem rumo e só com a própria mente para se apoiar. E, dessa forma, não é nada forçada a forma com que Alfonso e Jonas Cuarón introduziram a "fala consigo mesma" e o "pensar em voz alta" dentro dessa história. E é o que torna esse momento de epifania da personagem (a cena do contato com os cães/bebês, a memória da filha morta, a aceitação da morte) um momento tão bonito. E até o humor do filme é legal, nesse sentido. A cena em que Ryan explica a origem de seu nome é divertida e arranca sorrisos facilmente da plateia, por exemplo.
Apesar das associações de Gravidade com 2001: Uma Odisseia no Espaço que pipocaram por aí desde que o filme foi visto pela primeira vez, não teria como discordar mais. O filme de Cuarón é sobre a vida, sobre viver (ou sobreviver), mas não chega nem perto da complexidade existencial da obra-prima de 1968. Não diminui em nada, pois são filmes diferentes, com propostas diferentes. O que é impossível deixar de notar são as referências visuais e/ou textuais "Kubrickianas" que o diretor, como todo bom criador de sci-fi pós-2001, faz questão de incorporar. As mais óbvias talvez sejam: a) a caneta que está flutuando em torno da personagem de Bullock durante várias cenas do longa, b) a belíssima cena final com a astronauta tendo que "reaprender a andar", numa metáfora muito legal sobre o descontrole sobre os próprios movimentos que o ser-humano tem no espaço e c) a relação homem x máquina, quando a segunda está fora de controle.
A inesperada virada final de Gravidade, com Ryan conseguindo surpreendentemente pousar na Terra é tão gratificante quanto controversa, e vai ser o que muitos vão implicar no filme. Não esperava que isso fosse ser mostrado pelo longa de forma alguma, mas foi uma cena bem bonita. Com uma trilha-sonora pontual, a câmera faz questão de enfocar a personagem de baixo pra cima, dando uma nítida impressão apoteótica sobre a coisa toda. O fato é que o que filme tem grandes momentos de desenvolvimento da personagem, mas não chega a estudá-la propriamente dito, pois sempre tenta não fugir muito de seu lado blockbuster. Mas quer saber? Isso não importa. De tudo isso, o que sobra é o gosto desse espetáculo visual tão imenso e tão maravilhoso que talvez não redefina o Cinema, mas que vai marcar pra sempre como uma das grandes experiências cinematográficas possíveis de serem sentidas no Cinema atual. E Cuarón não precisa do Oscar (e outros prêmios) pra mostrar o quão foda é. O Oscar, pelo contrário, deveria é agradecer por ter a chance de premiar um diretor que concebeu uma obra como essa. Que seja feita a justiça.