Em primeiro lugar, gostaria de parabenizar o amigo Francisco Russo pela ótima síntese a respeito de vários aspectos do filme.
A personagem principal, Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock), é uma cientista que vive para o trabalho e tem horror ao contato social. Ela também é uma pessoa sem fé e que, provavelmente em razão da morte mais ou menos recente de sua filha pequena, perdeu muito de sua espiritualidade.
Após o acidente no espaço, o comandante Matt Kowalski (George Clooney) passa a ser o único interlocutor da Dra. Ryan. Ele precisa motivá-la a encontrar uma solução e não desistir.
As situações vivenciadas forçam a Dra. Ryan a desejar o diálogo com outras pessoas. Uma cena significativa é aquela em que a Dra. Ryan capta uma transmissão de uma emissora de rádio e gostaria que fossem pessoas que estão em real contato com ela.
O fato deflagrador do filme (o acidente no espaço) só ocorre porque a nossa civilização desenvolveu conhecimentos científicos e tecnológicos suficientes para lançar satélites e missões espaciais tripuladas. Entendo, portanto, que o filme está debatendo, através da figura da Dra. Ryan, um modo de vida que está muito presente nas sociedades atuais, e que se sustenta fortemente nas facilidades criadas pela ciência e pela tecnologia, ao mesmo tempo em que pode levar a um esvaziamento das relações humanas e da espiritualidade. É impressionante, no filme, a fragilidade da situação em que os tripulantes do ônibus espacial se encontram, mesmo com toda a tecnologia empregada na construção do veículo e realização da missão. Fala-se, assim, da falta de perspectivas de uma vida com muita ciência e pouca humanidade e espiritualidade.
O ponto negativo do filme, a meu ver, é incluir várias situações inverossímeis a fim de aumentar a tensão do expectador. Trata-se, aliás, de um recurso muito difundido no cinema atual - os “heróis” safam-se miraculosamente de perigos que exterminariam qualquer pessoa comum como eu ou você. Isso, porém, não retira o valor das discussões propostas pelo filme.