Calma. Privação de fôlego. Tensão. Alivio. Tristeza. Felicidade. O cinema é feito para despertar as mais variadas e discrepantes emoções. Em diferentes intensidades, de diferentes formas. Quando tudo isto nos atinge de forma sublime, estamos encarando uma obra de arte. Sendo assim, seria exagero chamar Alfonso Cuarón de gênio, mesmo com um currículo tão curto?
Assistir Gravidade é mergulhar no desconhecido. Algo bastante parecido com o que fazem os astronautas quando partem em uma missão para o espaço. Eu sabia, você sabia, todos que ouviram falar do novo filme de Cuarón sabiam do que se tratava esta nova produção: dois astronautas – Ryan Stone (Sandra Bullock) e Matt Kowalski (George Clooney) – ficam à deriva no espaço após um acidente com a estação espacial deles. Simples assim, nada demais. Mas se o enredo é tão básico assim, como o filme se segura durante uma hora e meia? Eu tinha exatamente a mesma dúvida e por mais que você leia dezenas de resenhas e opiniões sobre, você só entenderá a grandeza desta obra-prima assistindo-a. E a melhor forma de assistir Gravidade é sem esperar nada. Vá para o cinema disposto a sentir e você será marcado para o resto da vida. São sentimentos físicos e psicológicos fortes. Você ficará sem ar. Você ficará tenso, bastante tenso, como em um grande filme de terror. Você ficará aliviado quando o oxigênio retornar aos seus pulmões. Você terá vontade de chorar de alegria quando puder se agarrar a algo seguro. Tudo isso sentado na cadeira do cinema.
Gravidade é um filme que abraça de forma brilhante os opostos e nos atenta para o fato de que tudo é relativo. Você pode pensar que tudo está quase parado, se arrastando e de repente uma chuva de detritos surge para te mostrar que o tudo ali está se movendo a alguns mil quilômetros por hora. Da mesma forma, a aparente falta de força se esvai em questão de segundos quando os astronautas se chocam com peças à deriva no espaço, por exemplo. Os opostos também são bem retradados nos dois personagens principais. Enquanto Kowalski
é o astronauta descontraído, com sacadas engraçadas e geniais para todos os momentos – ele sempre tem um mau pressentimento sobre a missão espacial para então começar a contar alguma história engraçada sobre sua vida – a doutora Stone é a astronauta séria, preocupada. Até as frases dos dois mostram esta disparidade de personalidade dos dois – a personagem de Sandra Bullock “detesta o espaço”, já o personagem de Clooney “quer aproveitar a vista inigualável lá de cima”
. Por último e mais importante, a maior demonstração de opostos do filme de Cuarón está na trilha sonora. Assisti ao filme em uma sala com som especial e realmente valeu a escolha. A música é parte crucial de toda tensão mantida pelo diretor mexicano e as sequências de grande explosões seguidas por silêncios abruptos nos lembram toda hora que estamos em um ambiente extremamente hostil o qual não podemos controlar.
As leis da física são apresentadas de uma forma bem verossímil. Claro que existem todas as adaptações e os absurdos –
o Hubble e a estação espacial estão em órbitas bem diferentes, por exemplo. Ir de um para o outro exige tanta energia que nem os ônibus espaciais tem combustível para isso. O telescópio está a mais de 560 km de altura e se movimenta na altura do Equador. Já a estação fica 160 km abaixo dele, em uma órbita no extremo norte, sobre a Rússia
– mas e daí? Grandes artistas podem usar “licenças poéticas” sem nenhum problema – aliás, eles têm todo direito a isso - e elas são necessárias para o bom andamento de uma grande obra. O acaso também é muito bem retratado na
segunda chuva de detritos – fiquei com a impressão de estar vendo o experimento de Rutherford bombardeando um átomo para provar que este era praticamente um grande vazio - e, claro, o espectador passa por mais tensão torcendo para que a doutora Stone não seja atingida
. Cuarón disse em entrevista que um dos momentos mais tensos da divulgação do seu longa-metragem foi quando presenciou a apresentação do filme para astronautas de verdade e a aceitação foi imensa. Precisa de prova maior que o trabalho nesta parte foi muito bem feito?
A parte gráfica e de imagens é algo surreal em Gravidade. Assistir o filme em 3D é uma experiência sensorial ímpar, que te dará uma sensação brilhante de como é estar dentro de uma nave espacial em órbita no espaço ou dentro de um traje de astronauta, com direito a manchas no vidro do capacete e tudo o mais. O detalhamento alcançado dentro das naves, com os trajes e apetrechos de engenharia utilizados, também impressiona – me lembrou bastante quando vi os cenários do jogo Final Fantasy VII pela primeira vez. Tudo está lá. As imagens soberbas mostradas do pôr-do-sol e da aurora boreal têm uma razão bem simples para serem tão espetaculares: foram obtidas pela própria NASA que, aliás, serviu como consultora do o filme. E falando um pouco mais do 3D do filme, este só merece aplausos. Ao entrarmos no cinema e sentarmos na nossa cadeira, não nos damos conta que estamos prestes a vivenciar uma revolução deste artifício da sétima arte. O diretor mexicano, com suas câmeras girando em plano-sequência, nos deixa tontos e sem fôlego. A profundidade atingida é algo incrível.
A cena final, com Sandra Bullock saindo do mar, a câmera metade dentro e metade fora da água, te faz sentir como se você estivesse lá pessoalmente vivenciando tudo aquilo
. Sem dúvidas um trabalho magistral que merece todos os elogios possíveis.
O elenco pequeno do filme abre brecha para um destaque ainda maior dos dois protagonistas. George Clooney está seguro, carismático e faz muito bem o seu papel de dar todo o suporte para Sandra Bullock brilhar. E ela brilha, como brilha! Eu, apenas um leigo amante do cinema, sempre me perguntei o que leva um ator/atriz a ganhar um Oscar – além de toda politicagem da academia, claro. Me fiz a mesma pergunta durante Gravidade e a atuação de Sandra Bullock me fez entender um pouco o que difere um ator mediano de um grande ator. Este último te faz sentir o que o personagem está sentido. É importante lembrar que tudo aquilo que está sendo encenado, por mais natural que possa parecer, é algo induzido. Você sente a falta de ar da doutora Stone, sente o alívio dela, a tristeza dela. Você sente o que é ser a astronauta do filme. E a atriz teve que se expressar sem vivenciar tudo aquilo, tendo apenas meras suposições como base para montar seu personagem.
Cuarón - como grande expoente da ficção científica, por que não? - cria diversas alusões e metáforas. A mais bela e contundente, provavelmente, à concepção e desenvolvimento da vida:
a entrada de Sandra Bullock na Soyuz diretamente do espaço sideral vazio e escuro representaria a fecundação humana, onde um ser vem do nada e passa a habitar o ventre feminino – este muito bem retratado na cena onde a doutora Stone flutua apenas de short e camiseta no interior da estação espacial, em uma das cenas mais belas e emocionantes que eu já vi na história do cinema; já a saída dela da Soyuz, já na Terra, representaria o nascimento propriamente dito, com o personagem envolto pela água do mar, entrando em contato com o oxigênio e tentando, com extrema dificuldade, andar
.
Durante o filme, fiquei pensando que Gravidade seria um filme para ser assistido apenas no cinema, com o espectador completamente imerso em todas aquelas sensações. Ao sair do filme percebi que estava enganado. É um filme grandioso, com diversos pontos marcantes e memoráveis, que te faz lembrar que toda a magia do cinema em te fazer sentir e experimentar algo indescritível ainda existe. Oscar 2014, diga olá a um dos seus candidatos mais fortes. Mundo, diga olá a uma obra-prima.