Gravidade faz lembrar a todo instante como nós, seres humanos, somos frágeis e condicionados a tantas coisas das quais dependem nossa sobrevivência e bem-estar, colocando-nos em muitos aspectos em grande desvantagem aos restantes dos animais que habitam a Terra. Só uns poucos dias somos capazes de ficar sem água ou alimento. Precisamos de roupas para nos protegermos do frio. Levamos muitos anos para conseguirmos sobreviver sozinhos sem a proteção dos pais. Além disso, precisamos de amor, de carinho, de respeito, de reconhecimento para nos sentirmos integrados a algum grupo social que seja e não definharmos num sentido moral ou espiritual. E, muitas vezes, basta um microscópico vírus, alguns minutos sem oxigênio, ou um tombo estúpido para tirar nossas vidas.
Mas, por outro lado - e este é exatamente o tema do filme - o ser humano possui uma capacidade extraordinária de se superar, de vencer obstáculos e de sobreviver nas mais inóspitas situações, através da força de vontade e da fé - em si mesmo ou algo superior - que o faz subverter mesmo os mais pessimistas prognósticos e repensar a lógica coerente de nossas expectativas racionais.
É claro que já foram feitos outros filmes sobre este tema. Poderia citar o excelente exemplo de O Escafandro e a Borboleta. Mas o que este filme tem de especial é fazer com que o espectador de certa forma interaja e se sinta "na pele" da Dra. Ryan Stone, experimentando junto com ela suas emoções, sua angústia, seu desespero, sua ansiedade. Entramos literalmente dentro de seu macacão espacial, vendo através de seus olhos, sentindo sua respiração ofegante e seu coração acelerado. A tensão em Gravidade está o tempo todo lá, e esta experiência é vívida e extenuante para quem assiste assim como é para a personagem.
Existem alguns filmes que tem diálogos demais, personagens demais, enredos demais, ação demais, efeitos visuais demais. Gravidade, ao contrário, ao focar em uma situação-limite, ao invés de abordar uma história narrativa que se desenvolve num tempo e espaço amplos, é sucinto, e por isso mesmo mais impactante que a maioria dos filmes.
Afinal, o diretor Cuarón - também autor do roteiro, juntamente com seu filho - tinha poucos elementos para construir seu filme. Praticamente 2 atores e um estúdio. Nestas condições, o diretor comprova definitivamente o seu domínio da narrativa e das ferramentas da arte cinematográfica - algo que já demonstrara no excelente Filhos da Esperança.
O moderno uso da computação gráfica, que adicionou quase tudo que vemos além dos atores , criou cenas e ambientes absurdamente convincentes e belos. Destaco a cena em que a Dra. Ryan chora dentro da nave, e uma gota de lágrima vem ao encontro da câmera, flutuando pela falta de gravidade. Some-se a isso a música composta por Steven Price, que cumpre mesmo o papel de uma "trilha sonora". Afinal, Gravidade teve o bom senso, esquecido pela maioria dos filmes de ficção científica, de lembrar que no espaço não há propagação de som. Então, quando não há diálogos, o silêncio é preenchido pela música, que pontua a ação praticamente o tempo todo, incorporando às vezes o papel de efeitos sonoros.
Quando Sandra Bullock ganhou seu Oscar por Um Sonho Possível houve muitos que disseram que o prêmio era prematuro e injusto. A Academia vai ficar numa saia justa em 2014. Porque o prêmio, agora sim, seria merecido. Em Gravidade, Bullock foi testada ao limite, tanto física quanto emocionalmente. Se não há tempo em meio à ação do filme para uma verdadeira construção de personagem, ela é obrigada a reproduzir um arco de emoções somente através da voz e expressões do rosto - principalmente o olhar - visto que em praticamente todo o filme sua expressão corporal está bloqueada por um pesado traje espacial. Clooney, que faz uma espécie de contraponto humorístico como personagem, não está mal, mas o filme é dela, totalmente. Na cena final, quando ela caminha com dificuldade, ainda se readaptando à gravidade da Terra, a câmera a filma num ângulo bem acentuado de baixo para cima, fazendo-a parecer um gigante, em estatura, como querendo dizer que está mulher pequena e aparentemente frágil tem dentro de si, como muitos de nós, uma força e determinação que supera seus limites físicos.
Em meu último post no blog fiz uma prévia seleção dos melhores filmes de 2013 e, sem querer imitar as últimas edições do Oscar, cheguei a um número de 9 filmes. Gravidade chegou para completar o 10º lugar na lista. Até o final do ano, poderá haver alguma mudança nas escolhas, mas seguramente este filme vai ficar, porque embora ainda falte 2 meses, o Sr. Cuarón trouxe este presente de Natal antecipado a todos os apreciadores da sétima arte.