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Loraine
2 críticas
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5,0
Enviada em 11 de abril de 2020
Para sair das representações comuns do universo de Alice, esse filme merece ser visto, ao menos. É uma das versões mais sombrias e criativas, dizem tantas indicações por aí... para mim, é a mais poética; a animação nem sempre leva a um lugar agradável e confortável, mas os desdobramentos e releituras de cenas da obra de Lewis Carroll são bastante apropriados e muitas vezes certeiros. spoiler: Por exemplo, quando Alice cai num buraco, neste filme, ela passa por dentro de uma gaveta - a impressionante imagem formada, os sons/ausência de, a adaptação criativa diversa... toda a construção dessa cena remete a um estranhamento, depois um desconforto, depois vem a sensação de curiosidade "onde vou parar?" e, por fim, vem o alívio por ter terminado... são válidas e certeiras a medida que pensamos o quanto estamos encrustados da representação de um buraco convencional que muitas vezes não nos dá o mesmo nível de sensações e ideias...
É um filme, portanto, para sair do lugar comum e imaginar e sentir... se assistirmos como "mais um filme de Alice" não iremos nos deliciar com a proposta do diretor e muito menos aproveitar a poesia sombria, por vezes nem tão sombria, que se forma através das imagens, dos sons... Merece ser visto com cuidado!
Acredito que quando o escritor Lewis Carroll (1832-1898) escreveu a sua obra clássica, ele pensou em tudo, menos num conto de fadas. No entanto, na maioria das adaptações para cinema e TV, como a da Disney (1951), Tim Burton (2010), etc., foca-se muito na atmosfera mágica, no aspecto gentil e palatável da história.
O cineasta e animador tcheco Jan Švankmajer (1934-) é considerado o maior nome do cinema surrealista da atualidade. A Viagem de Alice (ou simplesmente Alice), seu primeiro longa-metragem, parte do pressuposto um tanto "cruel" de desconstruir a história de Carroll; Do livro, Švankmajer segue apenas vagamente.
Ao reinventar criativamente cenas e situações, Švankmajer paradoxalmente resgata o espírito original da obra, a atmosfera ao mesmo tempo onírica e assombrada, a bem dizer hostil em determinados aspectos, coisa que na maioria das adaptações não existe. Aqui, os personagens da história são meros bonecos; o Coelho é, na verdade, um coelho empalhado que come a própria serragem que vaza de um rasgo no peito.
De iluminação escura, numa ambientação claustrofóbica, Kristýna Kohoutová (Alice) é a única humana cercada por brinquedos e objetos que ganham vida. Algumas cenas de humor e a graça das animações suavizam, por momentos, a mão pesada do diretor. Mesmo assim, o filme brilha pela originalidade, pela criatividade.
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