Um cinema sem maquiagem
Logo no início da apresentação dos caracteres do filme, o título surge com uma guilhotinada na tela.
Travelling aéreo e câmera na mão mostram o cenário da grande metrópole de Manila. O cotidiano beira à realidade de um documentário na capital das Filipinas, com o olhar da câmera mostra o lado pobre dos menos favorecidos economicamente.
Apenas com o som ambiente e depois de aproximadamente dez minutos de filme ouvimos a primeira trilha sonora. Os meios de transporte são parte integrante da narrativa, seja um furgão, moto-táxi, carro ou ônibus.
Peping (Coco Martin) é um jovem noivo com cara de menino, religioso e estuda para ser um investigador policial.
Kinatay (Idem, Filipinas/ França – 2009, 105 min.) nos apresenta várias cerimônias de casamento que existem em Manila, inclusive o casamento de Peping. A família toda, “confortavelmente” acomodada dentro de um furgão vai comemorar a união do casal numa espécie de restaurante por quilo.
O noivo, aos poucos mostra que não é tão íntegro como demonstrava ser anteriormente, pois para completar o orçamento da nova família trabalha com negócios ilegais.
A partir desse momento o espectador deve estar preparado para uma radical mudança de roteiro, porque o filme toma um rumo completamente diferente do que estava seguindo.
O terror toma conta da telona. A visão de acontecimentos sórdidos por Peping, seus conflitos internos, suas angustias, nos faz mexer da cadeira e pensar o quanto o ser humano pode ser desumano.
O polêmico diretor filipino, Brillante Mendoza, traz uma simplicidade genial na forma de trabalhar com a ausência de luz, desfoque de câmera e arrepiantes ruídos quando o longa-metragem muda do ambiente familiar para o mórbido.
Kinatay não tem aquela obviedade tradicional dos personagens, quem é moçinho ou bandido. Não está estampado no rosto dos personagens como vemos no chamado “cinemão”, ou seja, quando tudo é muito claro e sabemos que não haverá grandes surpresas no decorrer dos acontecimentos.
Com exibição exclusivamente no Cinesesc, Kinatay, pelo contrário surpreende por ser uma obra que não tem receio de mudar e chocar o público.
Texto publicado originalmente em 2009
Sergio Batisteli é jornalista, criador de conteúdo do 'Blog do Sergio Batisteli - CineConecta'