Crítica: O Grande Gatsby
Em meio a tanta cor, festas incríveis e figurinos deslumbrantes, a mais nova adaptação da obra de F. Scott Fitzgerald é um filme raso, sem conteúdo e resultado de um ego estético sem conceito, culpa de uma direção preocupada apenas em estilizar.
A trama se passa nos anos 20 e Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio) é milionário que vive em Long Island. Nick Carraway (Tobey Maguire) já pouco tempo se muda para próximo da casa de Jay. Carraway fica fascinado com o estilo de vida de Jay e aos poucos ele passa a frequentar o círculo de Gatsby e percebe a paixão que Gatsby nutre por Daisy Buchanan (Carey Mulligan), casada com Tom (Joel Edgerton).
É incrível como um trailer é capaz de enganar tão bem quanto ao seu conteúdo. Em termos de adaptação, podemos dizer que essa quinta versão cinematográfica é teoricamente fiel. O filme captura bem o espírito festivo e luxuoso, mas ignora completamente o conteúdo para dar um amplo espaço ao romance pouquíssimo convincente de Gatsby e Daisy.
A edição feita de cortes rápidos e frenéticos funciona muito bem para dar aquele clima ostensivo de glamour, luxo e desperdício. O problema é que a edição deixa a história muito estilizada, confusa pra quem não está habituado ao tipo de narrativa e sempre dá aquela sensação de que está faltando algo complementar entre uma cena e outra. Nem mesmo o frenesi dos cortes agrada por muito tempo, criando um grande cansaço visual.
Os cenários incríveis e o figurino maravilhoso são o que o filme tem de melhor. Muita cor, muito brilho e tudo de maneira exagerada, causam aquela sensação de encanto sublime que só Baz Luhrmann consegue fazer em seus filmes. Os anos 20 do filme é estilizado e cada cenário gigantesco tem tantos detalhes que chega a tirar nossa atenção do diálogo dos atores. A direção de Arte toda deu um duro danado e podemos perceber que O Grande Gatsby nada mais é do que uma mistura entre Moulin Rouge e Romeo + Juliet, dois filmes do próprio Luhrmann.
A trilha sonora que Luhrmann costuma acertar em seus filmes, aqui acerta-se apenas 70%. Muito difícil você encontrar uma cena que não seja embalada por uma trilha musical, mas nem sempre essa trilha funciona e o instrumental excessivo e por deveras semelhante cansa. Há 5 canções que se destacam em um ótimo casamento de cena e são elas: "100$ Bill" de Jay-Z, a regravação de Back to Black (que aqui ignora-se completamente a parte cantada por André 3000), Young and Beautiful de Lana Del Rey, Over the Love de Florence Welch e a regravação de Crazy in Love por Emeli Sandé.
A direção de Baz Luhrmann é igual a de seus outros filmes, sempre valorizando a cor dos cenários, a beleza dos atores, enfim, tudo se resume a uma estética incansável e um exercício de beleza e perfeição. O roteiro é raso e foca no romance sem graça, mas pior do que isso, ele força em coisas que são muito significativas no livro e as transforma em algo absurdamente sem razão e justificativa no filme como o Farol com a luz verde ou a placa do Oculista (repetido de maneira exaustiva). O pior de tudo é seguir a exata estrutura de Moulin Rouge, com Nick Carraway contando a história em flashback e os ângulos iguais.
O elenco também caminha em cascas de ovos, mas não se pode culpa-los visto que ninguém tem a oportunidade apropriada pra desenvolver melhor o papel do que Tobey Maguire. Maguire interpreta Nick Carraway e o ator desenvolve bem seu personagem, deixando até mesmo aquela característica santa que as outras adaptações faziam questão de forçar, mais maleável. Leonardo DiCaprio não é bom como Gatsby, apesar de sua atuação ser considerada ótima a nível de roteiro. O ator tinha tudo nas mãos pra dar vida ao personagem de maneira satisfatória e exemplar, mas por culpa de Luhrmann ele torna seu personagem menos encantador, mais cismado e menos misterioso.
Decepção maior é a interpretação de Carey Mulligan como Daisy, algo inexplicável visto o grande talento da atriz. Mulligan sabe se portar elegantemente, mas não captou a essência de sua personagem, criando apenas uma menina mimada sem olhares significativos e sem a voz doce o suficiente para convencer. Joel Edgerton é um dos destaques do elenco e convence demais como Tom, o problema é que seu personagem não tem espaço o suficiente pra se desenvolver ainda mais.
Pra fechar com chave de ouro temos as melhores atuações do elenco com as atrizes Isla Fisher e Elizabeth Debicki. Fisher interpreta Myrtle Wilson e capta tão bem a essência da personagem que é quase um crime que suas cenas sejam tão poucas, aliás as cenas quase não se justificam na sequencia final. Já Elizabeth Debicki, que interpreta Jordan Baker, entrega uma personagem fantasticamente igual ao do livro, sendo também uma pena que não tenha sido melhor explorada. Outros que se destacam são o restante do elenco de apoio que fazem um excelente trabalho.
O 3D deixa todo o visual ainda mais lindo e trabalha excelentemente bem os planos. Não se trata de um filme que há coisas saltando da tela gratuitamente, é um filme de dimensão que transporta o público para dentro e também carrega os cenários até o público. É constante o primeiro plano do cenário ficar sempre para fora da tela, enquanto os demais planos vão ganhando cada vez mais profundidade.
Os efeitos especiais não convencem e soam muito artificiais. O cenário é lindo e excelentemente bem construído, mas quando tudo é feito por 100% computação gráfica soa tão falso que chega a ser ridículo. Algumas cenas da cidade que parecem um super exercício de Matte Painting, cenas com o carro viajando num chroma key berrante e quando Daisy entra na casa e Gatsby vendo um cenário mais falso do que tudo (O pior que ainda deram um desfalque), dão aquela sensação de que o filme ainda não foi terminado, mas é muito provável que a culpa tenha sido da própria paleta de cores e a fotografia escolhida que não casou na pós-produção.
Em resumo, O Grande Gatsby é um exercício elegante de estética extremamente pop, mas não tem nenhuma dramaticidade e no geral não é crível. Baz Luhrmann se preocupou tanto com a purpurina que se esqueceu de adicionar conteúdo a sua obra, o que é realmente uma pena pois tudo ali tinha um grande potencial. Definitivamente esse filme pra mim já é a decepção do ano.