Encerrando o primeiro semestre de 2013, “Guerra Mundial Z” enfim chega aos cinemas. De fato, o blockbuster produzido e estrelado por Brad Pitt teve uma produção bem conturbada. Os motivos foram muitos: elementos acrescentados ao roteiro devido a não aprovação do mesmo, estouros no orçamento (que, aliás, ultrapassou facilmente a marca dos 200 milhões), diversas cenas regravadas e conflitos entre o astro Brad Pitt e o diretor Marc Foster – que precisaram até mesmo de um intermediário para se comunicarem em certos momentos das filmagens.
Com isso, muitas especulações e comentários vieram à tona, por vezes classificando o filme como “bomba” antes mesmo de estrear. Contudo, bastaram os primeiros materiais de divulgação ser divulgados para que começássemos a aguardar com mais atenção um dos filmes de zumbis mais ambiciosos da história (a propósito, o trailer é realmente sensacional). E agora, vendo e analisando o resultado, compreendemos que a espera valeu a pena, ainda que a grandiosa produção esteja muito longe de alcançar alguma profundidade em relação a sua própria proposta.
Logo de início, ao abrir a narrativa, Mark Foster, diretor, propõe várias ideias bem interessantes acerca da humanidade e de um mundo globalizado, apontando, com planos rápidos e perfeitamente sincronizados, um real instinto selvagem contido em todos nós, como se fôssemos somente mais uma espécie como qualquer outra à mercê da natureza. Em meio a tal conjunto de proposições metafóricas, Foster também não perde tempo em relação às explicações das causas da epidemia que se alastra mundialmente, fornecendo explicações simples e diretas (que certamente soarão superficiais a muitos).
De qualquer forma, em poucos minutos somos introduzidos ao universo da trama, apresentados a uma simpática família (a qual seguimos durante toda a narrativa) e surpreendidos por uma espetacular sequência de ação inicial, que, por si só, mostra onde foram gastos mais de 200 milhões. A partir de então, o filme, após imprimir um ritmo alucinante em seu primeiro ato, começa a trabalhar suas ideias – e é justamente nesse ponto que “Guerra Mundial Z” apresenta seus problemas.
Adaptando livremente a obra de Max Brooks, o roteiro de J. Michael Straczynski e Matthew Michael Carnahan logo se revela inconsistente no desenvolvimento de suas premissas, apresentando sucessivamente argumentos falhos em relação à construção narrativa do filme e sua atmosfera. Na verdade, todo o caos global, tenso e visceral exibido repetidamente nos trailers não passa de pura fachada, quando o que realmente temos é uma mera história pontual fundamentada em diversos clichês.
Felizmente, isso não significa que “Guerra Mundial Z” seja um filme carente de criatividade, ainda mais tendo em vista as monstruosas sequências de ação concebidas com ótimos efeitos visuais de tirar o fôlego (por sinal, as cenas nas quais milhares de zumbis escalam um ao outro para, com isso, ultrapassar determinados obstáculos são realmente espetaculares). No entanto, as fragilidades do roteiro são extremamente nítidas quando este é obrigado a desenvolver ideias “globais”, por assim dizer. Nestes casos o que temos são argumentos superficiais que conferem certa desorganização à narrativa, que, por sua vez, vai aos poucos se tornando incoerente e não muito envolvente, à medida que o protagonista atravessa o mundo em diversas missões – o que, entretanto, proporciona vários momentos alucinantes.
E se Jack Foster, por um lado, se esforça constantemente em conferir energia, realismo e dinamismo ao longa; suas opções de filmagem e enquadramento, por outro, assinalam mais um grande problema do filme. Apostando em várias tomadas rodadas exclusivamente com câmera na mão, Foster, ao lado da falha fotografia de Robert Richardson, concebe muitos travellings definitivamente caóticos e neuróticos, que prejudicam diversas cenas, transformado-as em uma verdadeira bagunça.
Em contrapartida, o gigantesco desing de produção cumpre perfeitamente seu papel. Fora a inconvincente e picotada edição em momentos isolados, todos os outros requisitos (sobretudo direção de arte, edição de som e maquiagem) não deixam a desejar em nada. Os efeitos visuais, em especial, são um show a parte, uma vez que o objetivo não é principalmente alcançar um realismo perfeito de caracterização, mas, sim, criar e modelar algumas das criaturas mais insanas da história dos filmes do gênero – dito isso, não há dúvidas que a missão foi mais que cumprida.
Em relação ao elenco, Brad Pitt, com mais de 80% do tempo de tela, prova mais uma vez que tem talento, força e carisma suficientes para estrelar e conduzir praticamente sozinho uma superprodução como essa. Afinal, além dele é difícil encontrar alguém que se destaque, embora o elenco seja plenamente convincente, com atores que sempre alcançam êxito dramático quando necessário.
Apostando, ainda, em um desfecho aberto que escancara as portas para uma muito provável continuação, “Guerra Mundial Z”, após seu clímax um tanto quanto decepcionante, consolida-se, à sua maneira, como um bom filme, que diverte, entretém e convence – embora, voltando a salientar, esteja muito longe de alcançar algum nível de complexidade e profundidade narrativa.
No geral, vale a pena conferir este “novo capítulo” do legado dos zumbis no cinema, que, desta vez, são ainda mais desprovidos de humanidade e razão – remetendo metaforicamente à natureza de nossa existência, que, quer queiramos ou não, caminha sempre para o mesmo final miserável.
OBS:* Assista em 2D, pois o 3D, além de não acrescentar muita coisa, prejudica o filme, tornando-o incomodamente escuro.
29 de Junho de 2013.